Relações de verdade

segunda-feira, 28 dezembro 2009, 13:28 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

De tanto participar de redes sociais como FaceBook e Twitter, já acreditei que os mundos online e offline eram a mesma coisa. Só que basta a conexão à Internet apresentar algum tipo de problema e interromper momentaneamente a relação com o outro, para eu voltar a acreditar que relações de verdade precisam do toque, do olho no olho, de cheiros e outros elementos corpóreo-sensoriais que o mundo virtual (ainda) não pode prover.

Estou tirando férias em minha chácara em Ibiúna. Para ter uma idéia da precariedade da conexão via modem por aqui, chego até a apelar para a conexão discada. Quando percebo que estou a ponto de me estressar com essa limitação, coloco na cabeça que estou de férias e que posso viver sem acesso à Internet. Mas ainda há meu celular… Com conexão 3G, de vez em quando, ele funciona às mil maravilhas, só que escrever num teclado minúsculo, definitivamente, não é para mim. Ou sou absolutamente econômico, o que me incomoda, ou fico com cãibras no único dedo que consigo usar para digitar, o que me incomoda muito mais.

Nessas horas, jogo a toalha e redireciono minha atenção para o mundo que acontece fora da rede. Agora, por exemplo, estou em meu escritório improvisado no mezzanino e posso escutar o chiado uniforme da panela de pressão. Ontem, fiquei entretido com a algazarra dos sabiás, bem-te-vis, pássaros pretos, rolinhas e, até, de dois enormes falcões que, no final da tarde, voavam baixo, provavelmente, à caça de algum pequeno roedor. Ontem também salvei o filhote de um morcego que apareceu ao lado da piscina no início da tempestade e aceitei, em seguida, a proposta de meu filho menor e de meu sobrinho para darmos uma volta na “floresta” – uma trilha de uns 2 quilometros que fica próximo de minha casa. Conversamos sobre cobras e aranhas e outros bichos habitantes daquele lugar e brincamos de imaginar onde eles estavam escondidos enquanto caminhávamos. Aqui tem um ninho de cobra. Ali há uma teia… onde é que está a aranha? Fora alguns pássaros, o único bicho diferente que vimos foi um enorme sapo que cruzou a trilha bem na nossa frente e que os meninos cutucaram com uma varinha.

Se eu estivesse conectado à Internet, poderia conversar com meus amigos ou, até mesmo, com quem eu nem conheço, sobre experiências como essas, mas não adianta: a descrição da experiência não é capaz de substituir a experiência. Até mesmo este texto é nada perto da experiência real. Primeiro, porque a experiência já passou, estamos em outro momento, inclusive, o chiado da panela de pressão já não é mais o mesmo – agora, ela está emitindo aquele aviso sonoro que parece dizer que, se não aliviar a pressão, vai explodir. Quando escrevo, lembro-me também do cheiro da mata misturado ao da terra molhada, da quentura agradável do sol atingindo minha pele entre as frestas das árvores, do toque áspero de um tronco recoberto por espinhos, de toda a excitação de meu filho no encontro com o filhote de morcego e, depois, com o sapo.

Por outro lado, depois que vivi essas experiências e voltei para meu canto, fiquei outra vez com saudade de meus mundos virtuais, dos amigos com os quais só me relaciono em 140 toques e me vi, novamente, limitado pelos problemas de conexão. Não sei se foi o tempo ausente ou a impossibilidade da presença, mesmo que apenas virtual, que me trouxe essa saudade, essa vontade de falar e ouvir nessa outra esfera de minha vida.

Percebi que meu sumiço também deixou pessoas com as quais me relacionava com mais freqüência na mesma vontade de falar e ouvir, e à saudade acabou seguindo-se uma certa culpa, uma sensação de que, ao escolher viver offline, eu traia o outro lado, as relações online. Era como se, de repente, eu deixasse de existir. E aí fui correndo pegar meu celular, para ver o que eu perdi. Segui atentamente o “timeline” do Twitter de meus amigos e vi que alguns pareciam deprimidos, solitários, escrevendo até a madrugada, mendigando alguém que os ouvisse. Li os e-mails acumulados dos últimos dias, em sua maioria, cartões de Natal enviados com a mesma mensagem para todos os destinatários. Prometi a mim mesmo – e depois acabei publicando essa promessa – que não iria ler nem responder nenhum desses cartões impessoais. Só me flexibilizei quando recebi um torpedo escrito realmente para mim e, em outra ocasião, quando uma amiga me pediu para ler o cartão que havia me enviado.

Nesses momentos, onde sinto que as relações que se processam na Internet parecem tecer um mundo pautado pela solidão e pela impessoalidade, os limites tecnológicos deixam de ser importantes. É como se eles me convidassem a prosseguir caminhando entre trilhas na floresta e sinfonias de pássaros e, sobretudo, a promover mais encontros de verdade, com direito à presença de corpo e alma, com as pessoas que eu amo, sejam elas oriundas de minhas relações online ou dos misteriosos mundos offline.

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