Uma cirurgia para a retirada de um cisto cinovial do pulso obrigou-me a deixar a mão direita de molho por uma semana. Além de receber alguns comentários maliciosos de amigos, para alguém acostumado a discutir a relação até com o espelho, essa situação também acabou rendendo uma reflexão sobre o que, de fato, interessa: as relações.
Foram exatos sete dias com a mão direita imobilizada e presa numa tipóia. Para um destro, isso é uma limitação e tanto. Para um escritor, então, é um violento atentado. Mas não foi o cérebro quem estava sem funcionar, e a mão esquerda, sempre tão esquecida e relegada à condição de mão inútil, fez seu papel direitinho. Ela fez bonito, mas nem de longe substituiu à perfeição a outra mão. Tanto é que, assim que fui liberado da tipóia, comemorei com o seguinte comentário no Twitter: “Pela primeira vez nos últimos 7 dias, estou usando novamente minha mão direita. Quanta falta ela me fez!”
Imediatamente, recebi diversos comentários explorando a o significado, digamos, sexual da situação. Sem entrar no mérito da questão, o que, de fato, eu queria dizer veio no comentário seguinte, que, pelo visto, as pessoas não se interessaram ou tiveram paciência de ler: “Por que será que a gente só sente falta de alguma coisa quando a perdemos?”
Minha mão direita sempre esteve comigo. Desde que nasci, ela nunca me deixou na mão – com o perdão pelo trocadilho, e em todos os sentidos, para satisfazer também aos maliciosos. Essa performance impecável, no entanto, parece ter passado despercebida, até que, finalmente, ela foi forçada a ficar de molho por alguns dias. A mão esquerda bem que tentou me fazer esquecer da outra, mas o esforço era inútil. Só havia uma mão direita, com características, portanto, únicas, como, por exemplo, a dominância. Mesmo se a esquerda tentasse substituí-la nessa qualidade, provavelmente, levaria anos até atingir um resultado satisfatório.
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Coloquei os três pontinhos para dizer que dei uma parada no texto para observar com calma minha mão direita. Ela ainda está meio roxa e inchada em função do edema da cirurgia, mas já recuperou 100% de seus movimentos. Olho para ela e vejo muito mais do que uma simples mão ou um pedaço de meu corpo. Minha mão direita é a lembrança viva de todas as pessoas que são tão essenciais para mim. Algumas delas já se foram, e nenhuma mão esquerda, por mais bem intencionada que estivesse, conseguiu superá-las em sua importância. Outras ainda estão por aí, junto comigo, sendo, muito mais do que uma mão, para usar a expressão correta, meu braço direito. Mas como minha mão direita de verdade, quantas vezes eu disse isso para essas pessoas, que elas são absolutamente imprescindíveis para mim? Será que precisarei perdê-las para reconhecer sua importância?
Uma amiga me confidenciou que está numa relação onde já não existe diálogo há muitos e muitos anos. Não sei se seu companheiro é do tipo mão direita ou se, junto com a morte do diálogo, também se instalou a morte da mão. Só sei que vejo muitas de minhas relações como mãos direitas perdidas, membros amputados que ainda são sentidos tão reais e tão presentes. Definitivamente, elas não morreram, nem foram substituídas. Por isso, tenho me aproximado dessas mãos direitas que se desgarraram de mim por minha própria vontade ou por vontade delas. Isso não mais importa. Importa apenas que não preciso esperar que elas morram para reconhecer o valor que elas tiveram e, em alguns casos, ainda têm para mim. Basta pegar um telefone, enviar um e-mail ou, o que seria melhor, arrumar um encontro olho-no-olho, do tipo que a gente pode se dar as mãos e agradecer de coração pelo outro existir.
Minha mão direita
domingo, 31 janeiro 2010, 22:05 | | Nenhum comentárioPostado por Fábio Betti