Andando em círculos

quinta-feira, 04 fevereiro 2010, 00:48 | | 3 comentários
Postado por Fábio Betti 

Se você chegou até aqui no texto, é porque, de alguma forma, se interessou em conhecer minha experiência mística, mas, com todo o respeito por quem tem a paciência de me ler, vou lhe dar uma segunda chance para sair correndo. É que, como costuma dizer meu professor de Biologia Cultural, Humberto Maturana, a descrição da experiência não substitui a experiência. Isso quer dizer que, mesmo que eu me esmere na descrição dos detalhes de minha experiência, você jamais a conhecerá de verdade, porque quem a viveu fui eu, não você.

Por outro lado, o fato de alguém, repito, comum ter vivenciado uma experiência de iluminação pode ser um estímulo a quem acredita que só mesmo os espíritos mais elevados conseguem acessar conhecimentos profundos, que são também chamados de místicos.

Antes de relatar a experiência, no entanto, vamos unificar nossa linguagem. Para facilitar, usarei a definição do Wikipedia: “Misticismo é a busca da comunhão com a identidade, consciente ou consciência de uma derradeira realidade, divindade, verdade espiritual, ou Deus através da experiência direta ou intuitiva.”

Até aqui, tranqüilo, né? Pois bem, minha “experiência direta” aconteceu num espaço sagrado denominado “Círculo Celta”. E aqui dispenso a Wikipedia para colocar minha própria definição. Pelo que aprendi, Círculo Celta costuma ser um espaço formado por quatro círculos concêntricos marcados no solo com pedras, preferencialmente, retiradas do próprio terreno onde ele é construído, de maneira a preservar a energia do local, facilitando a conexão direta com a Mãe Terra. O círculo mais externo representa o material, o segundo círculo, o emocional, o terceiro, o racional e, o círculo central, o espiritual. Entra-se no Círculo por uma abertura feita em seu lado Leste – como todos os círculos místicos, a entrada está sempre de frente para onde o Sol nasce – e caminha-se no sentido horário, percorrendo cada um dos círculos em direção ao centro e tendo como intenção fazer uma espécie de lista de desejos.

Assim lá fui eu passando de círculo em círculo, enquanto relacionava meus desejos materiais, emocionais, racionais, até que cheguei ao círculo central. O curioso é que, como estava no centro, sobrava um tempo muito menor para dar uma volta completa e pensar no espiritual, em comparação ao tempo que tive quando caminhei no círculo material, o maior dos círculos. Só que, não sei explicar, o desejo espiritual emergiu tão logo dei o primeiro passo em direção ao centro. E junto com o desejo, uma palavra foi soprada em meu ouvido: humildade. O que será que isso queria dizer? Foi o que me perguntei, enquanto iniciava o caminho inverso, saindo do círculo espiritual, passando pelos círculos racional e emocional e finalizando no círculo material. A resposta veio ao longo desse trajeto e, junto com ela, se deu meu primeiro contato com o mistério, um conhecimento a que eu ainda não havia acessado.

A palavra humildade transmutou-se em aceitação e, enquanto eu passava de círculo em círculo, a aceitação funcionava como uma espécie de “conversor de desejos”. Percebi que, no caminho de ida ao centro, havia algo comum em minha lista: ela só trazia desejos de algo que eu queria ser, ou seja, eram muito mais exigências do que desejos. Já no caminho de volta, os desejos se deslocaram do que eu queria ser para o que eu era, migrando, portanto, de um estado futuro para o momento presente.

O que mais me surpreendeu foi que sempre entendi a humildade como a constatação de algo pequeno e inferior. Pessoa muito humilde costuma ser sinônimo de pessoa ignorante, modesta, pouco evoluída, enfim, que ainda “precisa ter” ou conquistar um monte de coisas para ser “alguém”. Em outras palavras, humildade tinha muito mais a ver com minha lista de “desejos-exigências” de minha jornada em direção ao centro do que minha nova lista de “desejos-aceitação” do caminho de volta. E aí veio o insight: meu encontro com a humildade não me fazia inferior a ninguém, me fazia apenas igual a todo o mundo. Reconhecendo-me no mesmo nível de qualquer pessoa, eu já não precisava me cobrar de ser “mais”, pois ser mais do que os outros me afastaria dos outros e, assim, não me reconectaria à vida. Só é possível fazer parte da vida com a consciência de que se é apenas um pequeno ponto e, ao mesmo ponto, um ponto essencial numa rede de infinitas conexões. Um único elo frágil em uma corrente basta para que a corrente inteira seja frágil. E reconectar-me à vida foi o desejo espiritual que apareceu tão logo dei o primeiro passo no círculo central.

Não faço a menor idéia se algum leitor conseguiu chegar até aqui. Quem chegou também irá saber agora que minha experiência mística não ficou restrita ao Círculo Celta. Em seguida, caminhei no Labirinto.

labirinto1Há algumas linhas de pensamento que definem o labirinto como um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem os percorre. Nessa categoria, inclui-se o labirinto de Creta, onde vivia o Minotauro, com sua cabeça de monstro e seu corpo de homem. Esse labirinto onde as pessoas se perdiam para serem devoradas pelo Minotauro foi construído por um arquiteto chamado Dédalo, que também virou sinônimo de labirinto. E também existem os Labirintos unidirecionais que, após algumas voltas, sempre levam ao centro, enquanto os Dédalos seriam as estruturas que visam confundir com entradas e saídas múltiplas.

Foi num desses labirintos, que sempre levam ao centro e que foi construído como uma reprodução exata do labirinto da famosa Catedral de Chartres, na França, que caminhei.

Éramos 14 pessoas. Cada um entrava no labirinto com uma diferença de 3 a 4 minutos. Nossa meta era chegar ao centro, onde havia um cálice com vinho representando o Graal – quem se interessar pela lenda do Santo Graal, por favor pesquise no Google, caso contrário, esse texto, que já está longo demais, ficará interminável. Para nós, o centro representava nosso propósito. Só para economizar seu tempo, a Wikipedia diz que “o encontro do labirinto é considerado pelos gnósticos como um símbolo de iniciação. Em seu percurso, haveria um centro espiritual oculto, uma dissipação de trevas pela luz e o renascimento pessoal.”

Enfim, conforme caminhávamos no labirinto, ora nos aproximávamos do centro, ora nos distanciávamos. E como se tratava de um labirinto baixinho, construído com 1.700 bambus cortados numa altura aproximada de 40 centímetros, podíamos nos ver uns aos outros nesse balet de corpos em movimento, se aproximando e se distanciando do centro. E o mais interessante dessa experiência é que, não importava se você resolvesse caminhar devagar, parar para descansar de vez em quando ou correr. Se seguisse em frente, iria, de qualquer forma, chegar ao centro. Todos nós chegaríamos ao centro, independentemente da distância que cada um de nós parecia estar desse ponto a cada instante de nossa jornada coletiva.

O fato é que, depois de um tempo, já não me importava mais chegar a lugar nenhum. Minha única motivação – motivação sem qualquer esforço ou exigência – era caminhar e me perceber nesse movimento de muitas almas que, ora estavam a minha frente, ora estavam atrás, numa troca contínua de posições, o que nos colocava exatamente no mesmo patamar, nem maiores nem menores uns dos outros.

Senti como se fizesse parte de uma harmônica constelação de estrelas, cada uma com sua órbita, cada uma com sua luz, estrelas que se encontram, se desencontram e, sobretudo, se reconhecem como parte de uma irmandade maior, algo difícil de verter em palavras, pois, afinal, estou falando da vida, e alguém iluminado poderia por favor me explicar o que, exatamente, é a vida?

3 comentários para “Andando em círculos”

  • Cardoso disse:

    Eu arrisco: uma das inumeras explicações do que é vida é se sentir membro dessa imensa engrenagem que é o universo, onde cada um de nos tem uma função, nem mais nem menos importante. Todos temos um objetivo, todos temos uma responsabilidade, todos temos que fazer com que a jornada seja a melhor possivel.

  • Luiz Fernando disse:

    Fabão, fiquei feliz de ter vivienciado estes momentos e ter também a minha experiência. Experimentar é viver. Abraço a todos.

  • Giovana Marina Gomes dos Sanros disse:

    Obrigada por compartilhar essa bela experiência! Nada pode ser mais gratificante do que vivenciar a sensação de fazer parte do todo e se sentir em equilíbrio…

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