A vida secreta das libélulas

quarta-feira, 17 fevereiro 2010, 15:41 | | 5 comentários
Postado por Fábio Betti 

Como uma inesperada revoada de milhares de libélulas numa tarde quente de verão pode ser motivo para celebrar a vida.

Houve um primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro trampo, o primeiro carro, a primeira namorada, o primeiro fora, a primeira dor de cotovelo, a primeira perda. Teve a noite da primeira Lua cheia, a noite passada na areia da praia, a primeira noite em claro com o filho doente, a primeira noite febril em Machu Picchu, a primeira noite de todas, que não me recordo como foi, apesar de sentir intimamente sua lembrança.

dragonflyE teve o primeiro interminável enxame de libélulas voando poucos metros acima de minha cabeça . Milhares de libélulas exalando um cheiro forte, cheiro de acasalamento, voando sem qualquer formação, mas sempre na mesma direção, pontos negros rabiscando a esmo o céu ainda azul do fim de tarde.

Não sei quantos mais espetáculos como esse ainda irei presenciar, mas foi o meu primeiro e, portanto, entrou para a lista de tudo o que me é inesquecível. Antes, não havia revoada de libélulas. Tudo se modificou , portanto. Uma nova vida se iniciou. A vida após a revoada das libélulas.

Não sei nada da vida das libélulas, a não ser que esses curiosos insetos, que alguns acreditam serem fadas disfarçadas, voam ligeiros como helicópteros e se suicidam com relativa freqüência em piscinas e fontes de água. Seres traídos pelos próprios instintos. Será que o destino do enxame não seria a morte coletiva? Ou talvez elas se dirigiam para a conferência anual das fadinhas? A não ser que uma das libélulas volte para me contar, jamais saberei ao certo. Aliás, não sei nem de onde elas vieram, quanto mais para onde foram. Viver na ignorância, no entanto, não me incomoda. Também não me conforta. Apenas vejo e cheiro as libélulas, e isso já é suficientemente importante, um fato gravemente inédito até então.

Penso em minha própria vida, eu que também não sei de onde vim e muito menos para onde vou. Só que diferentemente das libélulas, raramente me entrego aos ventos e aos movimentos dos instintos. Diferentemente das libélulas, eu penso e, mesmo que entregue à corrente, continuo preso aos meus pensamentos. Na verdade, eles me impedem de voar, pois pensamentos são mais pesados do que o ar. Pensamentos paralisam, congelam, mortificam.

dragonfly14Enquanto penso, as libélulas passam despercebidas, como muitos encontros de minha vida. Jamais saberei se teriam sido encontros inesquecíveis, pois quando eles ocorreram, eu mal estava presente, estava longe com meus pensamentos. Penso nos encontros depois que eles já se foram. Pensamentos estão sempre defasados no tempo, reproduzindo seu ponto de vista sobre o que teria acontecido enquanto a gente nem percebia acontecer.

Por outro lado, agora que presenciei a revoada das libélulas, sei que também já voei com elas. Já me deixei levar pelos instintos, me misturei e me perdi no enxame, simplesmente curti a viagem, sem qualquer preocupação de onde parti, para onde estava indo ou onde iria chegar. Muitas vezes, distanciei-me da paisagem, para poder incluir mais detalhes, outros olhares que, de perto, eu não conseguia ver. Sobrevoei meus próprios lentos e pesados pensamentos, encontrei-me com outras libélulas e, por instantes, voamos juntos num prazer livre e despreocupado.

As libélulas se foram. Agora elas vivem apenas em minha memória. Estão mortas para mim, que nunca mais verei as mesmas libélulas. Sabê-las mortas faz-me sentir mais vivo do que jamais me senti. Percebo-me muito mais do que memória, sou o fluir a cada instante, retraindo e expandindo meus pulmões, movimentando músculos, funcionando órgãos, a imaginação voando baixo no prazer e na gratidão de se saber vivo quando me reconheço no momento em que vivo.

Meu muito obrigado, portanto, por me conduzir de volta ao mundo concreto do presente contínuo cambiante às misteriosas libélulas, aonde quer que vocês estejam neste exato momento em que escrevo e que alguém, secretamente, me lê.

5 comentários para “A vida secreta das libélulas”

  • Thiago disse:

    Bastante poético. Parabéns!

  • adilson da silva soares disse:

    e uma coisa enpresionante essa tarde em minha casa sair da varanda e ai derepente ollhei para o ceu ele estava escuro ai eu pude perceber ke era milaos e milhos de liberula voando fikei maravilhado porke nunca na minha vida tinha vido tantas dezlas foi lindo elas voavam tao alto ke eu pude ver elas pekeninas mas erao muitas mesmo 31.03,2011

  • adilson da silva soares disse:

    ei nao poesia e real eu as vi

  • Fabio Betti disse:

    Eu também vi! Juro por esses olhos que a terra há de comer.

  • Laura disse:

    Lindo texto!!!!!!

Comentário

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