Os casais reclamam da falta de diálogo, que não são ouvidos uns pelos outros. Como somos seres basicamente relacionais, não ser ouvido pelo outro é como se a gente não existisse. E não ouvir o outro tem, portanto, o mesmo efeito, o de não reconhecer a legitimidade do outro, um caminho certo para que qualquer relação chegue ao fim.
Quando discuto com alguém, seja com minha mulher, um amigo ou, até mesmo, um desconhecido, normalmente, já não estou mais conseguindo ouvir o que o outro está me dizendo. Enquanto o outro fala, o que escuto é minha própria voz interna, me apontando os “erros” do outro a cada instante. E quem define o que é certo ou errado no que o outro fala é um negócio chamado pressuposto.
Pressupostos são teorias ou hipóteses (suposições) que criamos para sustentar nossas opiniões. Funciona mais ou menos assim: enquanto você fala, eu faço automática e, na maioria das vezes, inconscientemente o download de meus pressupostos para o tema que você está abordando e, a cada instante, julgo se o que você diz concorda ou não com as minhas crenças, que foram criadas antes que você começasse a falar – por isso, chamam pressupostos.
Nem é preciso ir muito longe para concordar que pressupostos são o inimigo número 1 da criatividade. Eles nos levam a pensar no passado, o lugar morto das idéias já testadas. O problema é que nenhuma relação acontece no passado, a não ser, claro, as lembranças. Mas ninguém almoça com dona lembrança ou faz loucuras com ela na cama. Viver de lembranças é, portanto, escolher não viver. Enquanto você lembra o que viveu com fulano, sicrano está de saco cheio de não ser visto nem ouvido ou, pior, de ser comparado a alguém que não existe mais, a não ser em suas lembranças. E, se você não cair, literalmente, na real, é bem capaz de que sicrano também possa sair de sua vida para se tornar uma lembrança.
Mas nosso assunto são os danos que os pressupostos causam às relações. E para não correr o risco de ficar no campo das teorias e dos conceitos, resolvi fazer uma pesquisa em minha memória, habitat natural dos pressupostos, em busca de exemplos concretos par a ilustrar melhor nossa questão e, principalmente, nos ajudar a evitar as armadilhas que colocamos no caminho ao diálogo e ao entendimento mútuo.
Quando me fiz a pergunta “onde os pressupostos se manifestam?”, as primeiras imagens que surgiram foram.. no trânsito!:
“Se estou dando ré, o que estiver atrás de mim também tem que dar.”
Nem me passa pela cabeça que pode haver um outro veículo atrás do carro atrás de mim ou que não haja espaço para o outro dar ré ou, simplesmente, que o outro está distraído e não percebeu que estou dando ré.
“Se dou seta para virar à direita, quem está à minha direita tem que me dar passagem.”
Um amigo meu, nascido na Bahia, disse que em Salvador a seta é chamada de “foda-se”. Você aciona e simplesmente vira o carro na direção desejada. E o outro? Bem…. o nome da seta já explica tudo.
“Os carros têm que parar para eu atravessar a rua na faixa de pedestres.”
Não me conformo com o desrespeito dos motoristas pela faixa de pedestres. Nas viagens que fiz para Estados Unidos e Canadá, basta alguém ameaçar colocar o pé na rua, para que todos os carros parem. – e isso se dá, inclusive, fora da faixa de pedestres. Aqui, a sensação é que é exatamente o contrário: basta colocar um pé na rua para os carros acelerarem como se quisessem nos atropelar.
O fato é que, se esses pressupostos estiverem só na minha cabeça, o desastre será inevitável. Por isso, precisamos aprender a falar sobre nossos pressupostos, trazê-los á tona, primeiro, para nós mesmos tomarmos consciência de sua existência e, segundo, para que o outro comece a entender as razões por que agimos dessa ou daquela maneira.
Agora trago um exemplo na área afetiva. Uma DR que aconteceu comigo. Eu e minha companheira não estávamos numa fase muito boa. Passávamos férias fora de São Paul. Cercados de amigos, distribuíamos sorrisos e gentilezas, mas, intimamente, algo entre nós não estava funcionando bem. Mal trocávamos meia dúzia de palavras ao longo do dia, e à noite, bastava chegar à cama, para cada um virar para um lado e silenciar.
Não havia, no entanto, nenhum sinal de inimizade, apenas uma estranheza expressa por esse distanciamento. Até que iniciamos um dia trocando farpas e seguimos na base da ironia o tempo todo. Alguma coisa havia se modificado, o torpor e a indiferença haviam sido substituídos pela impaciência e a intolerância. E a emoção, antes anestesiada, agora era a raiva.
A deterioração do clima entre nós tornou a DR inevitável. Como gladiadores se preparando para lutar por sua própria vida, quando sentamos para conversar, primeiro, cada um de nós apontou no outro os gestos de impaciência ou as atitudes de intolerância observados ao longo daquele dia. Isso fez os ânimos esquentarem bastante. Já estávamos usando as palavras para nos agredir quando adveio o silêncio – aquele tipo de silêncio que quem já brigou com alguém querido sabe muito bem qual é; um tipo de silêncio que, não importa quanto tempo resista, parece durar uma eternidade.
Nossa resiliência, no entanto, fez com que ficássemos ali, um de frente para o outro, ocupando o vazio das palavras com um sem número de pensamentos. Um de nós, de repente, quebrou o silêncio com a sugestão: e se a gente tentasse falar simplesmente uma coisa, a grande coisa que, neste momento, está nos incomodando demais em nossa relação? Foi a deixa para iniciar o diálogo – antes, o que houve não foi diálogo, mas discussão, sendo a discussão aqui empregada como símbolo de uma disputa onde um tem que vencer, e diálogo, a corrente de significados que flui de uma pessoa a outra, sem qualquer intenção, visível ou velada, de se estabelecer uma disputa, um duelo entre vencedores e vencidos ou entre verdades e mentiras.
Ela trouxe a questão dela. Eu trouxe a minha. Pedimos para que cada um de nós esclarecesse sua questão, enriquecesse com detalhes, ilustrasse com exemplos, para que tentássemos entender de onde falávamos o que estávamos falando, ou seja, quais eram os pressupostos que ancoravam nossas questões. Percebemos que não havia nada impossível de ser resolvido. Pelo contrário, só pelo fato de cada um de nós verdadeiramente se abrir para ouvir o outro, a solução praticamente já havia sido construída.
Parece milagre e, dependendo de sua definição para milagre, talvez seja mesmo. Quando nos abrimos para ouvir o ponto de vista do outro, validando-o como uma das faces possíveis da verdade, emitimos uma mensagem clara de que reconhecemos o outro como legítimo. Mais do que isso, quando aceitamos o fato de que o que o outro pensa e sente é válido para ele, mesmo que não sejamos capazes de ver com os olhos dele, isso também pode se tornar válido para nós, que incluímos um novo olhar para nossa visão de mundo – visão que, sozinhos, nossos pressupostos limitariam a um reles e minúsculo umbigo.
Bastante centrado e explicativo. Antes as pessoas fossem mais equilibradas para poder terem mais diálogos para não acabarem unicamente se magoando e por fim acabarem seus relacionamentos.
Puxa vida, que texto lindo!
Parabéns!
Achei o site esa noite e estou lendo há algumas horas, mas esse texto foi muito especial.