Tem gente que ainda acredita que liderança é um atributo genético ou um talento que só alguns poucos eleitos são capazes de desenvolver. Cuidado: gerenciar não é o mesmo que liderar.
Praticamente, todas as empresas organizam sua estrutura de poder em torno da hierarquia piramidal. Não por acaso, pirâmides foram construídas para homenagear os faraós, líderes supremos que encarnavam o poder divino na Terra. Autoridade que jamais podia ser questionada, os faraós viraram múmias e sua civilização se extinguiu completamente. Nem lhes passava pela cabeça a possibilidade de formar sucessores. Afinal, como deuses, era-lhes reservada a vida eterna. Quando morriam, não raras vezes, suas famílias eram sacrificadas e todos eram enterrados juntos para continuarem suas vidas no reino dos deuses.
Muitas organizações continuam agindo como as antigas civilizações dos faraós. Seus líderes gerenciam do alto de suas pirâmides, sentindo-se e operando como se lhes fosse concedida autoridade divina, e os demais colaboradores contentam-se com a condição de servos ignorantes.
Aparentemente, este arranjo é um bom negócio pra todo mundo. As empresas sentem-se mais seguras no modo de comando unificado, onde não cabem questionamentos, os líderes pensam que têm o controle em suas mãos e o resto pode sossegadamente dar de ombros enquanto se travam guerras e organizações viram ruínas.
No entanto, quando olhamos para os líderes, seja na história, seja na empresa para a qual trabalhamos, quando procuramos por pistas sobre o que os teria levado à condição de líderes, raramente encontramos sinais de herança biológica ou escolha divina. Pelo contrário, vemos pessoas que ou se prepararam gradual e continuamente ou deram de cara com um desafio e, aparentemente, sem outra escolha, pegaram a responsabilidade para si e, simplesmente, fizeram o que tinha de ser feito.
Qualquer que seja o caso, a liderança está ao alcance de absolutamente qualquer pessoa. Tanto é que a história está recheada de líderes improváveis – gente sem cultura formal como, por exemplo, a empresária dona de uma rede de magazines que, toda vez que fala em público, faz o famoso Aurélio remexer indignado em seu túmulo. Sem qualquer formação específica, ela já foi destaque em diversas publicações de negócios e ninguém duvida de sua capacidade de liderança.
Para não construir teses exclusivamente teóricas, costumo sempre ilustrar meus textos com experiências de cunho pessoal. E a minha experiência com a liderança é, à primeira vista, mais um desses casos improváveis – não exatamente por questões culturais, mas por uma razão ainda mais limitante: o comportamento.
Imagine um sujeito tímido, mas beeeeeem tímido. Introvertido, reservado, solitário, esse fui eu até uns 23, 24 anos de idade. Praticamente, desde que aprendi a escrever, fiz dos livros meus grandes companheiros e comecei a produzir textos na forma de poesias, diários e resenhas de filmes. Ler, estudar e escrever eram o meu mundo. Até que, um belo dia, já trabalhando na área de comunicação organizacional, meu diretor me chamou em sua sala e me passou a incumbência de representá-lo em um evento numa universidade. Meu trabalho consistia em montar e realizar uma palestra sobre a política ambiental da empresa para jovens estudantes de comunicação de uma universidade em Campinas.
O fato de o público ser gente de minha idade não ajudava em nada. Pelo contrário, eu pensava: como conquistar respeito e credibilidade sendo eu também tão jovem? O tema não era meu forte – falar da relação harmoniosa entre uma indústria química e o meio ambiente é complicado nos dias de hoje, imagine então no início da década de 90!
Não tive dúvidas: recrutei um estagiário ainda mais jovem e inexperiente do que eu, que me ajudou na criação da apresentação e, depois, ainda ficou na platéia me dando apoio moral. Tremi, gaguejei, me confundi com a ordem das transparências – PowerPoint, naquela época, nem em sonho. Fiquei incontrolavelmente nervoso e acabei com uma taquicardia crônica. Em minha avaliação, a palestra só não foi um desastre completo, pois minha evidente inexperiência com o tema e a dinâmica da palestra parecem ter deixado o público comovido. A audiência foi generosa e optou por valorizar mais minhas boas intenções do que minha performance real.
O fato é que, na esteiria desta, seguiram-se muitas outras palestras e situações onde me vi forçado a desenvolver competências em comunicação pessoal e liderança, características que, honestamente, achei que não tivessem nascido comigo.
Depois de anos atuando na área comercial de uma agência, venho trabalhando como consultor em comunicação face-a-face, uma prova de que, mesmo sem existir qualquer evidência de habilidades de liderança em minha história passada, basta, às vezes, uma oportunidade para a liderança aflorar e se aperfeiçoar por meio da experiência. E o estagiário? Bem, o estagiário progrediu e se tornou um grande líder, tanto é que, atualmente, atua como um dos executivos globais de uma empresa espanhola.
O estúpido monopólio da liderança
quinta-feira, 04 março 2010, 21:37 | | Nenhum comentárioPostado por Fábio Betti