Viver e morrer

segunda-feira, 08 março 2010, 00:48 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

“Olha um corpo estendido no chão”, aponta, assustado, meu filho. A moto toda retorcida, irreconhecível. Na verdade, foram dois acidentes com vítimas num espaço de 48 horas. Dois corpos cobertos apenas por uma lona plástica. Vidas que se foram, mas… para onde foram?

Para mim, não há símbolo mais representativo da morte do que um corpo sem vida. No caso de um acidente, esse símbolo pode ser ainda mais forte, pois o impacto de um carro em velocidade sobre carne e ossos torna o corpo distinto do que cremos humano. No lugar de uma pessoa com pensamentos, sentimentos e vontades, um pacote disforme e fedorento.

Imagino o sofrimento da família, que perdeu um ente querido sem qualquer despedida. De uma hora para outra, um filho, um pai, um irmão desapareceu e, em seu lugar, ficaram ossos quebrados, carne macerada e uma poça enorme de sangue. Alguém tentará consolar uma mãe com um “foi dessa para melhor” ou que agora ele está acompanhado de algum parente que já morreu.

As pessoas que falam isso parecem acreditar no que dizem. Eu gostaria muito de acreditar no que elas dizem, mas, mesmo que repita suas frases milhões de vezes como um mantra, lá no fundo mora uma desconfiança que não se deixa enganar tão fácil. Quando me conforto com a perda de alguém pela esperança de algum tipo de continuidade após essa vida, ela logo vem toda cheia de perguntas que nem eu, nem as pessoas que têm fé, nem a ciência que, nós do mundo ocidental, reconhecemos como válida, somos capazes de responder.

Ao invés de respostas, medo e angústia. Queremos desesperadamente acreditar em nossa imortalidade ou, pelo menos, na permanência de nosso eu, mesmo que apenas em espírito, mas as evidências são todas no sentido contrário.

Caminhamos com os olhos vendados em direção ao cadafalso. Quantos passos mais? Não sabemos. Honestamente, quem quer de fato saber?

já que viver é morrer, como continuar caminhando sem a certeza científica de que há algo a “viver” depois da morte? Pelo menos para mim, só a fé não basta. Não é, portanto, a fé que me move, muito menos a fé alheia me comove.

É a morte, a única certeza, única inseparável companheira, quem anima meus passos. É sua presença que tem me feito tão presente, tão desejoso de aproveitar a vida enquanto ela acontece.

O corpo estendido no chão me joga na cara o quanto a vida pode ser curta. Agradeço a ele por isso, agradeço ao corpo desconhecido por não me deixar só com meus pensamentos e incertezas. A vida bate à minha porta. Não posso deixá-la esperando.

Um comentário para “Viver e morrer”

  • Adriano disse:

    Já ouviu falar sobre a Conscienciologia? É, eu sei que parece marmelada, mas tente não formar um preconceito negativo a respeito desse tema. Dê uma procurada a respeito e busque um mínimo de conhecimento sobre essa área. Talvez você goste do que vai encontrar. Talvez apenas se mantenha cético. Mas de qualquer forma, vale a pena conhecer o que ela, a Conscienciologia, defende. Abraços

Comentário

You must be logged in to post a comment.