Presenciei uma cena no aeroporto que me deixou boquiaberto. Duas enormes filas se formaram em direção à triagem da alfândega na chegada dos vôos internacionais: uma fila vinha diretamente da imigração e outra do Freeshop. De repente, elas se encontravam e, a partir daí, só se poderia seguir numa única fila. Nessa encruzilhada, várias pessoas se hostilizavam, justificando a fila em que estavam como a fila correta. Um homem, aparentemente, de origem chinesa, se indignou com o fato de pessoas vindas da outra fila estarem entrando na sua frente. Uma delas, um brasileiro, resolveu comprar a briga com o estrangeiro e, com dedo em riste, disparou: “Shut up! You’re in my country!”
O que me horrorizou nessa cena foi que, primeiro, não havia fila correta. Como resolvi ficar de fora enquanto a confusão não se resolvesse, pude observar que as duas filas que se formaram eram igualmente longas e penosas para quem estivesse se movendo lentamente nelas depois de muitas e muitas horas dentro de um avião. E, segundo, bastou a tensão aumentar de nível para o preconceito mostrar suas caras – no caso, o preconceito contra o estrangeiro, esse outro que vem ao nosso país e resolve entrar na fila errada, ou seja, na fila que não é a nossa fila.
Como um viciado em Twitter, tratei logo de tirar uma foto e postar um comentário sobre o ocorrido. Em poucos segundos, Augusto de Franco, um grande especialista em redes sociais, respondeu ao meu comentário dizendo que, “por essas e outras que o patriotismo é um delírio de raiz belicista.” Essas palavras conduziram minha atenção a um período imediatamente anterior a esse confronto no aeroporto, quando eu e minha esposa estivemos, pela primeira vez, visitando algumas cidades da Espanha e da França.
Antes da viagem, ouvíamos que os espanhóis eram um povo mal-educado e de higiene reprovável. Não foi isso que encontramos na capital Madrid e na histórica cidade medieval de Toledo. Por onde andamos – e, como turistas interessados e curiosos, realmente andamos muito -, não encontramos uma sujeira sequer. As ruas sempre limpas e o moderníssimo metrô madrilenho absolutamente impecável. As pessoas sempre nos recebiam carinhosamente – bastava que parecêssemos perdidos, o que não era algo tão difícil de acontecer, que alguém se aproximava oferecendo auxílio. E na França, país que leva a fama de não respeitar muito os turistas, especialmente, os que não falam sua língua, não foi diferente. Nosso vocabulário de meia dúzia de palavras em francês era suficiente para que falassem vagarosamente e que repetissem o quanto fosse necessário para que nos entendêssemos. E muitos franceses conversaram conosco em espanhol ou em inglês. Fomos muito bem tratados nos dois países, aliás, como também ocorreu na Argentina, quando lá estivemos e pudemos comprovar a admiração que os argentinos têm por nós, contrariamente ao que costumamos dizer – e tantas vezes repetimos que passamos a acreditar.
E, quando eles vêm nos visitar, mandamos que eles calem a boca porque este é o nosso país? Como escrevi no Twitter, isso me envergonha. Como me envergonha a briga entre os homofóbicos e os heterofóbicos no Big Brother. Ou os rumos que tomou a discussão dos royalties do pré-sal, colocando cariocas e capixabas contra o resto do país.
O preconceito nos divide, nos coloca em posições opostas, produz a guerra, como escreveu Augusto de Franco. E, enquanto nós, brasileiros, continuarmos escondendo de nós mesmos nossa raiz separatista, é isso o que produziremos: guerra. Basta que a temperatura aumente um pouco para, tomados pela emoção, deixarmos fluir a raiva oculta – medo oculto? -, o sentimento de superioridade – baixa auto-estima? – e nossa dificuldade em aceitar o que não é igual a nós, mesmo que seja o diferente o único caminho de aprendizagem.
Seria muito melhor baixarmos nossas máscaras e encararmos nossos preconceitos, como, aliás, ocorre no processo de evolução de qualquer sociedade. Só assim poderemos superá-los, trazendo à luz da consciência o que está oculto e, como tal, nos domina sem que nos apercebamos.
Discutindo a relação com nossos preconceitos
segunda-feira, 29 março 2010, 17:40 | | 1 comentárioPostado por Fábio Betti
boa reflexão. acredito que o grande problema do ser humano é querer ser mais do que ele realmente é. olhar para o semlehante parece estar cada vez mais dificil. em extinção está o sentimento de olhar ao outro. interesses próprios claramente consomem a essencia de bondade do ser humano. uma pena por se tratar de um planeta tao belo. uma pena por se tratar do nosso lindo Brasil.
abracos