Ainda vejo muitas empresas procurando cursos de criatividade para criar uma cultura de inovação entre seus colaboradores. Parece que elas não aprendem que o saber é o maior inimigo da inovação. Como costuma dizer o biólogo Humberto Maturana, “a certeza cega. Quanto mais certeza você tem, menos você vê.”
Conversava com uma amiga sobre um livro de autoria do psiquiatra Içami Tiba chamado “Homem cobra, mulher polvo”, que já li faz algum tempo e discorre, de maneira bem-humorada, sobre as diferenças entre homens e mulheres, quando, de repente, aparece a crença de que homens e mulheres são diferentes e, portanto, tudo o que podemos fazer é aceitar essa condição.
Se essa afirmação, de um lado, leva a uma aceitação positiva, sem resistência, a algo que é mais forte do que nós, qual seja, a biologia, a natureza, enfim, os hormônios que nos tornam fisicamente distintos e nos impelem a este ou aquele comportamento, por outro, ela esconde uma perigosa armadilha – porque se acreditarmos que tudo o que podemos fazer é aceitar uma determinada condição, que motivação teremos para modificá-la?
Homens são promíscuos e individualistas. Mulheres são frágeis e submissas. Homens não sabem conversar. Mulheres falam demais. Homens não choram, são incapazes de mostrar seus sentimentos. Mulheres são exageradamente sensíveis.
São a estas frases que nos apegamos quando nos entregamos a algo com o qual não podemos lutar. Esse ser de poder supremo que nos subjuga com sua pesada mão de ferro chama-se certeza. Se é certo que não há como um homem compreender verdadeiramente uma mulher, para que nos esforçarmos nessa direção? Por que lutar contra a correnteza?
“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.”
Esta frase atribuída ao dramaturgo francês Jean Cocteau deveria ser empregada como um espécie de mantra e repetida a cada vez que nos percebêssemos reféns de certezas, sejam nossas, sejam dos outros. Porque nada de novo se produz com o que já está certo. O que se sabe só reproduz conhecimento velho. O novo é produto da dúvida e, portanto, da ignorância.
Chama-se de ignorante aquele ou aquela que não tem instrução. Sorte, então, de quem não tem instruções para seguir, pois, assim, sem saber, acabará por fazer coisas para as quais não existem instruções, como, por exemplo, inovar e – quem sabe? -, mesmo sendo homem, aprender a entender as mulheres.
Santa ignorância!
domingo, 11 abril 2010, 21:34 | | Nenhum comentárioPostado por Fábio Betti