Por falta de planejamento, minhas últimas viagens de avião têm sido feitas na desconfortável cadeira do meio. Sempre espremido, já não me lembrava mais do prazer de voar na janelinha, até que, finalmente, fui premiado com um vôo vazio.
Quando eu era pequeno, só queria saber de voar na janelinha. Meus filhos brigam para ver quem fica nela. Acabam revezando a cobiçada poltrona nos vôos de ida e de volta.
Da janelinha, pude ver a infindável cadeia de montanhas rochosas que percorrem grande parte da costa oeste norte-americana até o Canadá. Assombrei-me com a visão de Las Vegas, a cidade que parece ter caído do espaço no meio do deserto. Aliás, da janelinha, pude admirar o gigantismo dos Andes e a aridez do deserto do Texas, o mar do Caribe e a baia da Guanabara, sempre uma visão inspiradora na chegada à cidade maravilhosa.
E depois de voar muitas vezes na poltrona do meio, lá estava eu de volta a minha poltrona preferida. Desta vez, não havia nada surpreendente para acompanhar. Tratava-se de uma simples ponte aérea Rio-São Paulo. No entanto, a noite já caia quando decolamos do Santos Dummont e, assim que me aproximei de São Paulo, aquele oceano intermitente de luzes, qual uma rede de veias de várias cores a perder de vista, assombrou-me tanto quanto as paisagens de meus olhos de criança. Conforme o avião se aproximava do solo, o que antes era indistinto ia ganhando forma. Prédios se multiplicavam, as filas de carros se tornavam nítidas em suas idas e vindas vermelhas e brancas. O relevo da cidade revelava-se aos poucos num lento e crescente discurso de boas vindas. Sentia-me penetrar nos mistérios da cidade, mergulhando em suas luzes até tocar-lhe a pele na suave aterrissagem.
Nada disso teria sido possível se eu tivesse escolhido a poltrona do corredor. Na verdade, confesso que foi essa a minha escolha. Mas tão logo decolamos, percebi que estava sozinho na minha fileira. A praticidade do corredor, na hora do desembarque, já não fazia o menor sentido. Quando chegamos, não me apressei, como costumo fazer. Ao invés de ficar em pé, aguardando a porta se abrir, segurei-me um pouco mais na janelinha, observando já de perto a agitada vida do lado de fora, com aviões taxeando, ônibus transportando passageiros, cargas indo e vindo, vida em eterno e imprevisível movimento.
Essa experiência me fez refletir que a vida é curta demais para desperdiçá-la no corredor de um avião, enquanto um universo infinito de novas possibilidades se oferece, de graça, do outro lado da fileira de poltronas. Quando crianças, isso é tão claro. Por que será que, adultos, abdicamos desse presente em nome de uma suposta praticidade? Quanto tempo, afinal, poupamos quando optamos por sentar no corredor? Pelo visto, da próxima vez que viajar com minha família, seremos três a disputar a janelinha.
Campanha em prol da janelinha
terça-feira, 20 abril 2010, 02:13 | | Nenhum comentárioPostado por Fábio Betti