Pirações, inspirações e outros viveres

domingo, 25 abril 2010, 23:46 | | 2 comentários
Postado por Fábio Betti 

Tem gente que acha que pirar e inspirar é a mesma coisa. E sai por aí consumindo qualquer porcaria vendida como milagre, passagem secreta para o paraíso, liberdade total instantânea ou chave mágica das portas da percepção. Esquece que pirar é o mesmo que queimar-se, arder no fogo impiedoso, enquanto inspirar é, pelo contrário, (re)construir-se continuamente e encher-se de vida.

Inspirar é algo que fazemos sem pensar. Ninguém fica contando quantas vezes inspiramos. A não ser, claro, os médicos e os aparelhos que eles utilizam para poupar seu pensar.

Inspiramos e pronto: enchemos nossos pulmões de oxigênio misturado a outros gases e partículas de todo o tipo, suspensas nesse ar que não se vê a olhos nus e, mesmo sem o vê-lo, sabê-lo misterioso elemento sem o qual já não mais existiríamos.

Inspiramos e fazemos nossos pulmões se expandirem como um anjo espreguiçando-se ao acordar de um sono profundo. Milhões de encontros, conflitos, diálogos, trocas, uniões, separações, fusões acontecem e se repetem, se repetem, se repetem. No inspirar, trazemos continuamente a vida de fora para dentro, de fora para dentro, de fora para dentro.

Inspirar-se é deixar-se invadir pelo que está fora, abrir-se para o novo, entregar-se a caminhos inéditos, sem qualquer placa, sem noção de destino ou direção.

Só se enche o copo vazio. Só se inspira quem, de tempos em tempos, lembra-se de esvaziar seu pote, liberando ideias, crenças, conceitos, preconceitos, certezas, antigas dores e medos passados. Pode-se fazer isso num ritual místico ou num poema. Mas não se necessita de nenhum dote especial para esvaziar-se. Basta abrir a porta da jaula e deixar novos bichos entrar – em grupo ou um de cada vez, tanto faz, desde que entrem.

Inspirar-se libera-nos para aprender novas línguas, conhecer o mundo e a si mesmo pelo espelho mais perfeito que nos deram: o outro.

Inspirar-se é se encher do outro – outro entendido como a oportunidade nos presenteada de abrir os olhos para o que não se pode ver sozinho. Não, não se pode ver com os olhos do outro, mas se pode inundar-se das visões do outro, vividas unicamente por ele e sentidas tão diferentemente quanto forem os ouvidos de quem as ouve. A cada conto, aumenta-se um ponto…

Quem prende o ar depois que inspira faz apneia. Tem quem consiga ficar mais de dois minutos debaixo do ar com a respiração presa…

Expirar é a libertação do resultado da troca entre o ar que entra e nossos pulmões e demais órgãos internos. Ela é o que sobra dessa alquimia. Quando expiramos, jogamos pra fora aquilo que não mais nos serve, liberando-o para o mundo.

Quando um pintor inspira-se para colorir uma tela, sua obra é o produto que sobra dessa troca. O resto, o imenso resto fica dentro, com ele.

Quando um escritor inspira-se para preencher laudas imaginárias no computador, seu livro é o que já não mais lhe pertence, produto do mundo, de autoria crescentemente múltipla, a cada vez que é lido e, a cada leitura, reconstruído. Tudo o mais, ao escritor pertence, seu tesouro particular.

Inspiramos e nos expandimos.
Expiramos e nos recolhemos.
E nessa troca e terna mente crescemos.

Nosso viver biológico se ajusta por conta própria, sempre de olho no bem-estar do sistema vivo. Nem precisamos nos preocupar com ele. Precisamos, sim, nos preocupar quando, às vezes, conscientemente, lutamos contra ele, atentamos escancaradamente contra nosso próprio bem-estar.

Precisamos nos manter atentos para os momentos em que, deliberadamente, buscamos estar no mal-estar.

Desequilibramos nosso viver biológico perfeito acreditando que ganhamos algo precioso com essa atitude, pois o sistema nervoso vive como realidade tudo o que vive no momento em que vive, só qualificando-o como engano em algum momento posterior. Então, invariavelmente, acabamos descobrindo que todo desequilíbrio gera mais desequilíbrio e dor.

Um ser vivo em desequilíbrio caminha em direção ao colapso.

Aos poucos, o ar preso dentro da gente vai se transformando em um outro, diferente daquele que entrou pela inspiração. De elixir da vida, transforma-se lentamente em veneno. Retido, nos consome, nos canceriza, nos destroi. Cabeça cheia de passado é cabeça velha enrijecendo-se. Rigidez é morte. Fluidez é vida. Inspirar e expirar. Inspirar-se e expirar-se.

Ao invés de pedra, planta. Se, no entanto, tiver que ser pedra, que ela possa rolar na correnteza. Com o tempo ela ficará lindamente polida, qual um diamante sem arestas cortantes. Não importa o tamanho, a forma ou a cor, todas as pedras que se jogam na correnteza chegam ao final do rio maravilhosamente lindas e perfeitas. Cada uma ao seu tempo.

Pinturas, esculturas, poemas, fotografias, músicas são pedras que rolaram muito tempo na correnteza dos artistas que as criaram. Rolaram dentro da cabeça deles, passaram por cada rio de sangue e nutrientes, mas fizeram isso tão rápidamente do ponto de vista da forma como medimos o tempo, que é como se um raio os tivesse atingido.

Quando nos inspiramos, é mesmo como se um raio tivesse nos atingido, mas, ao invés de nos fulminar, é um raio capaz de recarregar nossas energias com sua poderosa luz. E aí basta se entregar ao fluxo, deixar-se levar pela correnteza. Longe do fogo que pira e consome e das certezas que enrijecem e só nos sufocam. Perto da vida que pulsa e que pula de fora para dentro e de dentro para fora.

2 comentários para “Pirações, inspirações e outros viveres”

  • Flávio disse:

    Fábio,

    Seus textos sempre são harmônicos. É impressionante. Parabéns mais uma vez e, me inspirei!

  • Fabio Betti disse:

    Flavio, obrigado pelo incentivo que, por essência, me é sempre inspirador.

Comentário

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