O poder do outro

terça-feira, 04 maio 2010, 16:54 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

Sem o convívio com outros seres humanos, dificilmente seríamos humanos. Há, inclusive, relatos feitos por antropólogos sobre crianças de tribos antigas que, abandonadas na selva, passaram a viver como animais selvagens. O mito de Tarzan não é à toa. Ou a lenda de Mogli, o menino lobo imortalizado pela Disney. No entanto, isso não quer dizer que só possamos viver na dependência do outro, mesmo que, muitas vezes, seja assim que vivemos.

Um escritor é salvo por uma enfermeira após sofrer um acidente de carro. Grande fã de seus livros, a enfermeira descobre que o escritor pretendia matar sua personagem mais famosa em seu próximo romance e passa, então, a torturá-lo, obrigando-a a reescrever a história. Criado pelo mestre de suspense Stephen King e adaptado ao cinema pelo diretor Rob Reiner, o conto “Angústia” não trata apenas da obsessão de um fã – o filme, de 1990, ganhou o nome “Louca Obsessão” (Misery). Ele aborda alguns dos poderes que atribuímos uns aos outros – no caso, o poder de um livro de ficção sobre a vida de uma leitora, e o poder que esta pleiteia sobre a liberdade de viver e de criar do escritor. Quando, de alguma forma, nos sentimos impotentes frente ao outro, seja um outro que nos domina pela força ou pelo amor, estamos vivendo uma relação de poder não muito diferente da que é retratada pela ficção.

No filme, se percebe claramente o poder que cada personagem exerce sobre o outro. Na vida, nem sempre isso é possível. Nos enredamos em relações onde somos submetidos ao poder do outro ou submetemos o outro ao nosso poder, sem sequer nos apercebermos. Assim, sem refletirmos sobre esse jogo, cometem-se pequenas atrocidades – um comentário maldoso sobre a aparência ou a roupa de alguém, uma negativa sem recurso à negociação, chantagens emocionais de toda natureza aplicadas, muitas vezes, em pessoas que dizemos amar! Até mesmo uma atitude pessimista pode funcionar como um comando de poder sobre o outro. Quem nunca chegou feliz de amor pra dar perto de alguém mal-humorado e teve sua energia imediatamente drenada? Quem participa de cursos de autoconhecimento sabe do que estou falando. É aquela história do “bom dia por que?” Porque sim, horas! Porque estou vivo, já não é o bastante?

A questão crucial, na minha visão, é justamente esta: por que damos o poder ao outro sobre nossas vidas? Medo da síndrome de abandono? De virarmos animais selvagens? Se todos pensarmos dessa forma, que só podemos viver relações do tipo opressor-oprimido, é exatamente em lobos solitários que iremos nos transformar – seres tão ressentidos entre si, que já não conseguirão mais se tolerar. Aliás, eu, particularmente, não quero ser tolerado. Quero ser ouvido, quero ser respeitado, quero ser amado.

Minha mulher vive me alertando para não ficar me expondo demais, para não atrair mau-olhado. Mas se me esconder num canto e ninguém ficar sabendo quem eu sou, o que penso, enfim, que eu existo, como, afinal, eu conseguiria atrair bom-olhado? Porque a vida tem me mostrado que toda vez que se conta um sonho para alguém, dá-se um passo para realizá-lo. E todo assassino de sonhos é, no fundo, um sonhador frustrado. Não conseguiu realizar seus próprios sonhos e vive tentando atrair os outros para o mesmo caminho. Se depender de mim, vai acabar sozinho.

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