Carta às mães que se foram

sábado, 08 maio 2010, 23:40 | | 6 comentários
Postado por Fábio Betti 

A mesa está posta, vaso de flores, pratos, copos, talheres, comida e vinho. Lá fora, chuva e frio. Aqui dentro o vazio. A mãe não veio receber sua homenagem. Algumas mães não estão à mesa com seus filhos. Mando a elas notícias do mundo que deixaram.

Mães, seus filhos estão reunidos. Alguns vieram com seus netos. Outros com os bisnetos.

A família reunida é sempre festa. Bem, quase sempre. Tem sempre um parente que é serpente. Mas mesmo quem desfia veneno hoje se contém em seu respeito.

Para a mãe, o filho é sempre um anjo. Anjos caídos também tem mães. E algumas estão reunidas no céu, como você, você e você, a quem me dirijo nesta carta.

O céu deve ser uma festa, de tantas mães que chegam nele todos os dias. Será que aí vocês conseguem fazer as pazes com suas noras? Aposto que sim. Noras também se transformam em mães, mães dos netos de suas sogras. E netos são os anjos supremos, que transformam mães em avós, mães ao quadrado, com seu amor multiplicado sem a responsabilidade pela educação e outras obrigações que, às vezes, sobrecarregam as mães de tarefas ingratas.

O mundo é árido sem vocês. Há dores sem trégua, rancores, desamores, desesperança, indiferença, inconsciência, destruição.

Mães fazem tanta falta que é a ela que o moribundo costuma recorrer em seus últimos instantes. Mesmo já idoso, é à mãe que ele pede ajuda, e não há mãe nesse – e noutro – mundo que não venha em auxílio de um filho.

Por sorte, tem sempre novas mães chegando, para que o mundo possa continuar se reflorindo. As flores murchas semeiam a terra de esperança e de saudades. Porque mãe só tem uma. E para aquele que não tem mais a mãe para lhe fazer cafuné quando o sol se põe, o perfume que exala do jardim é o da camélia que caiu do galho. A saudade transporta a gente para o tempo morto do passado, para o jardim das flores que já morreram, mas que vivem floridas dentro da gente, mesmo que não possamos mais tocá-las.

As mães se foram. Ficaram filhos, netos, bisnetos… Vida que, insistentemente, continua se perpetuando. O ciclo da vida persiste apesar dos furacões, terremotos, tsunamis, das tragédias naturais e das tragédias que nós mesmos criamos. Quer maior prova de amor a vocês do que essa eternidade?

Quem fica testemunha apenas um instante desse milagre, mas vocês mães que se foram podem vê-lo por completo, no fenômeno das gerações a perder de vista, da humanidade que povoa a Terra a partir de seu ventre original.

Cada um de nós que, por enquanto, vamos ficando, não esquecemos de você que um dia nos nutriu em seu peito, embalou em seu colo e amou incondicionalmente.

A vocês mães que se foram, saibam que ainda aqui estão, zelando por nós e pelos que vieram e virão depois, nesse imenso amor que nos deixaram como herança, amor que hoje está também à mesa, dividindo o pão e espalhando sorrisos de Monalisa pelos rostos dos filhos das mães que se foram.

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