Persistir no erro é humano

quarta-feira, 12 maio 2010, 14:20 | | 3 comentários
Postado por Fábio Betti 

Nascemos e crescemos ouvindo que errar é humano, mas persistir no erro é burrice. Assim, sem nos darmos conta, vamos nos culpando e aos outros ao menor sinal de recorrência de erro. Em um mundo que valoriza tanto o conhecimento, o substantivo transformado em adjetivo tem um peso brutal. BURRO! Assim, nos dividimos entre os que erram só uma vez e os que erram repetidamente. Os que erram só uma vez são humanos, inteligentes, aprendem com os próprios erros; já os outros são o que são: BURROS!

Para tentar entender o que nos move nessa compulsão separatista, peço licença para recorrer a um fundamento da biologia. “Todo ser vivo vive o que vive, no momento em que vive, como algo válido.” Em outras palavras, todos os seres vivos vivem como verdade tudo aquilo que percebem do mundo. A diferença entre nós, humanos, e os demais seres vivos é que nós refletimos sobre o que vivemos e, assim, muitas vezes, descobrimos que nos enganamos.

Cena 1: Você está dormindo profundamente, quando, de repente, o telefone toca às 3h da manhã. Você acorda de um sobressalto, já assustado – será que seu filho adolescente que ainda não voltou de uma festa sofreu algum acidente? Neste exato instante, é isso o que você sente: medo, dor.
Cena 2: Ainda esbaforido, você atende o telefone. Era engano… Alívio!

Na primeira cena, você viveu alguns segundos como se realmente tivesse ocorrido algo com o seu filho – quem nunca passou por algo semelhante? Seu corpo reagiu a essa crença momentânea, reforçando-a: coração disparado, suor frio. Na segunda, você descobriu que havia se enganado. Em princípio, devia estar tudo bem com o seu filho, pois não era ninguém ao telefone falando que ele havia sofrido um acidente. Note que, de fato, você não sabe o que está acontecendo com ele naquele momento, mas você se conforta com a descoberta de que o que você imaginou – e viveu! – no primeiro momento, foi desmentido no segundo. Se essa mesma situação se repetir, provavelmente, você irá viver sensações muito parecidas, tantas quantas forem as vezes em que ela ocorrer. Ou seja, você é BURRO mesmo, hein?

Obviamente, para toda regra, existem exceções. Então, nós logo tratamos de excluir as situações que nos colocariam na condição indesejada: a de BURRO, claro! Enquanto isso, agimos – na maior parte das vezes, sem refletirmos sobre a forma como agimos – sem tolerar os erros alheios.

A melhor maneira de perceber que não toleramos os erros dos outros é observar, mais uma vez, nosso próprio corpo. Nessas ocasiões, não raras vezes sentimo-nos alterados fisicamente. Os sinais se tornam perceptíveis no aumento do batimento cardíaco e da pressão sanguínea, na acidez estomacal e um repentino rubor facial. E daí para atitudes de agressividade e/ou superioridade, é quase uma reação automática – é como se o nosso corpo estivesse mandando no jogo e nos impelindo a determinadas atitudes.

No entanto, quando refletimos sobre a afirmação de que cada pessoa percebe o mundo de uma forma totalmente particular e que todos nós, em cada instante, podemos nos descobrir equivocados sobre algo que acreditávamos válido no instante anterior, tendemos a concordar rapidamente. Aceitamos a teoria, mas não a praticamos. E, quando não refletimos sobre esse paradoxo, nos igualamos aos seres vivos que não refletem sobre o seu viver, como, por exemplo, os BURROS!

3 comentários para “Persistir no erro é humano”

  • Raimundo Ramos disse:

    A sociedade tem diversos exemplos e alguns esterótipos de pessoas ou grupo delas que vivem de forma “limitada” por assumirem que tudo aquilo que foge ao “normal” e que tenha algum tipo de insistência pelos autores delas, são erradas e algumas vezes fora de propósito.
    Isso reflete algumas vezes que vivemos nos “comparando” uns aos outros por causa dos padrões pré-estabelecidos e como consequência, nos leva a ter algumas vezes vidas vazias e medíocres.

  • Fabio Betti Rodrigues Salgado disse:

    Pois é, Raimundo, sinto que ainda estamos vivendo no mundo das trevas, acreditando nas sombras e temendo tudo aquilo que nos tira de nossa zona de conforto – por mais desconfortável que possa ser viver na ignorância, nos parece um lugar melhor do que o novo e, portanto, incontrolável mundo real.

  • joyce disse:

    Com certeza, o que é o real, como cada um de nós percebe esse real? Muitos passaram a vida estudando esse tema e a conclusão é que vemos o mundo de formas diferentes.

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