Tratado sobre o perdão e a intolerância

domingo, 23 maio 2010, 01:48 | | 3 comentários
Postado por Fábio Betti 

Recentes impropérios que recebi de uma leitora sobre um texto escrito dois anos atrás me levaram a refletir sobre o mundo que estamos construindo quando não aceitamos nossas diferenças. Tenho direito de expressar o que penso sobre as relações entre homens e mulheres neste blog – para isso, o criei. E a leitora não teria, então, o direito de expressar sua indignação defendendo-se de quem ela sentiu que a atacou?

Diz-se do que mata para se defender que não teve culpa. Foi legítima defesa. Mas o que dizer do que se defende de um outro tipo de arma, a palavra? A língua pode cortar mais do que a navalha, pois que a navalha corta na carne, enquanto a língua ferina costuma ir mais fundo, cortando na alma.

As dores do corpo passam, as da alma podem criar raízes e se transformar em sofrimento. Dor flui, sofrimento fica. O que se sente ferido na alma vive, portanto, numa dor que continua indefinidamente no sofrimento. Basta um cutucão de nada para a ferida já dolorida se abrir de novo, expondo suas profundezas. É a gota d’água que faz o copo transbordar. A gota em si não é nada, mas ao desencadear o transbordo do copo ela recebe toda a culpa. Uma simples palavra tem o mesmo poder, o poder de transbordar o sofrimento represado. E uma simples palavra pode também ser responsabilizada por uma desgraça que não tem tamanho. Ela engancha em um emaranhado que começou em algum lugar num passado remoto e desencadeia um processo que culmina com a exposição do sofrimento e de tudo o que vem antes dele e que, por orgulho ou por medo, não se quer ver.

Ninguém gosta de olhar para suas próprias entranhas, para a sujeira que empurramos debaixo do tapete, para a meleca acumulada embaixo do assento da cadeira. Ela já está lá há tanto tempo que nos desindentificamos dela, já não a sentimos como uma parte nossa. Mas de repente uma palavra põe tudo a perder, desmascara a farsa do auto-engano, nos coloca frente a frente com nossa imagem sem retoques. Podemos aceitá-la como quem sabe-se imperfeito ou dirigir nossa ira a quem nos revela o lado indesejável. Como até nos sabemos imperfeitos, mas agimos na inconsciência de sê-los, partimos invariavelmente para o ataque. Sentindo-nos atacados, defendemo-nos atacando. Assim se movem as guerras, sejam nos nossos condomínios ou entre povos e nações.

Veja que falo em “sentir-se atacado”. Não digo “sou atacado”. Porque nem sempre quem empunha a palavra quer nos ferir. E, mesmo que queira, só consegue seu intento se assim o permitirmos. Costumo dizer que jamais me ofendo quando alguém me dirige palavras com as quais não me identifico minimamente. “Assassino!” “Bandido!” “Viado!” Nada disso me causa qualquer dor ou sofrimento. Se, no entanto, ressinto-me com alguma ofensa, tem ali um convite para eu percorrer a linha do novelo e chegar ao início de tudo, à dor original, que foi sentida em algum lugar do passado e que agora é ressuscitada e sentida de novo, por isso o ressentimento.

Se não aceito o convite para a auto-reflexão, no entanto, o que me resta? Culpar o outro por meu infortúnio, por ter acordado o dragão dentro de meu estômago? Já experimentei esse caminho muitas vezes. Em nenhuma delas, solucionei o meu problema, ou seja, parei de sofrer. Pelo contrário, recalquei meu sofrimento ainda mais, estimulando-o a se esconder mais profundamente e, pior, ganhei a companhia da culpa pela farsa que impingi a mim mesmo e pela dor que impingi ao outro.

Pergunto-me se é justo provocar a dor alheia por uma dor que é só nossa. Sabemos de cor esta resposta e, no entanto, causamos – ou, pelo menos, tentamos causar – a dor no outro.

Em nenhum momento, dirigi-me à leitora no texto que escrevi. Falei de mim, do que penso, do que sinto o tempo todo. Mesmo assim, a leitora sentiu-se ofendida e… me atacou – pelo menos, foi assim que senti quando li seu comentário com palavras e expressões que denotavam raiva e intolerância.

Tolerar não é um verbo muito simpático. Tolerar alguém é o mesmo que suportar ou agüentar alguém. Não quero ser tolerado, quero ser escutado. Assim como não quero tolerar o outro, mas escutar o outro.

Nesse domínio da escuta, perdoei a leitora que me atacou com impropérios. Perdoei-a porque sinto que a escutei a partir de sua dor e, assim, me solidarizei com ela. Espero apenas que ela consiga superar seu ressentimento e acessar ela própria a sua dor, liberando-a para escutar melhor a si mesma e ao outro, esse outro que talvez seja nosso único e verdadeiro caminho para o crescimento.

Que as diferenças em palavras e opiniões, portanto, não nos separem, mas nos levem a reconhecer a maravilha da completude que só se atinge quando se ama verdadeiramente o outro como uma parte do todo do qual nós também pertencemos e do qual – aí sim – dói demais nos separar.

3 comentários para “Tratado sobre o perdão e a intolerância”

  • Clarissa disse:

    Oi Fábio,

    Impossível seria e será, como todos sabemos, agradar com unanimidade cada uma das pessoas ou grupos . Daí também o colorido humano.
    Somos assim, seres incompletos em busca de alguma completude, mas ela não vem, ela não existe e isso nos torna vivos, seres buscadores. Alguns de nós, pobres mortais, passam a vida na busca e agradecendo toda nova oportunidade de nos perceber vivos com a aquarela de cores que a vida nos apresenta e também os muitos borrões. Outros de nós passam a vida na busca de algo que suprima sua falta e não conseguem achar o colorido dentro de sua história, acreditando que exista uma fórmula que ainda não encontraram e a cada vez que um outro aponta algo que não esteja dentro dessa “fórmula imaginária” e que possa miná-la, muitas vezes reagem na defensiva ou no ataque.

  • Clarissa disse:

    Mas isso nunca é com o outro e sim pela constatação (consciente ou não) que sua “fórmula imaginária” é inaplicável e muitas vezes inadequada na busca dessa completude. Somos assim mesmo, imperfeitos e incompletos e nessa busca é gratificante ter a oportunidade de ler e acessar outros pensamentos e interpretações sobre muitos assuntos, assim como você nos proporciona através do seu blog. Escreve porque quer, lemos porque queremos! Cada um sabe onde aperta seu calo. E vamos em frente!
    Um beijão pra vc.

  • Fabio Betti Rodrigues Salgado disse:

    Bela e profunda sua reflexão, Clarissa. Muito obrigado por trazer seu ponto de vista e colorir ainda um pouco mais esse diálogo. Bjs.

Comentário

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