Mulheres super poderosas e os meninos perdidos

sábado, 12 junho 2010, 02:13 | | 3 comentários
Postado por Fábio Betti 

Nunca as mulheres reclamaram tanto de nós, homens. E o foco já não é mais apenas nossa participação nas tarefas domésticas e na criação dos filhos, cobranças com as quais nos acostumamos e, cá entre nós, tiramos de letra perto dos novos desafios que enfrentamos. Vivemos dias de medo. O macho sempre disponível anda cabisbaixo, sem o brilho de outrora. E as mulheres se perguntam o que teria acontecido com o guerreiro destemido, o caçador implacável que agora se esconde pelos cantos, acanhado, como um menino tímido, impotente e indefeso.

Já há alguns anos praticando a discussão de relação – “DR” para os íntimos -, nem sempre por livre e espontânea vontade, tenho aprendido um bocado sobre o universo feminino.

Conversando e convivendo com mulheres, aprendi, por exemplo, a não perguntar sobre a TPM quando elas apresentam um inesperado comportamento depressivo, agressivo e/ou hiper-sensível, mesmo que ele realmente tenha sido causado pela TPM.

Aprendi a não aceitar “está tudo bem” como resposta quando o olhar diz exatamente o contrário e praticamente implora por um “decifra-me ou te devoro”.

Aprendi que as mulheres precisam tanto de carinho quanto de “pegada”, e que, portanto, demandam igualmente amor romântico e sexo selvagem, e que preciso estar atento aos sinais para saber quando recorrer a cada um e como dosar um e outro. Aliás, aprendi que basta apertar um único botão para subirmos às paredes, enquanto mulheres são um intrincado piano de cauda que mãos rudes podem facilmente desafinar.

E, mais recentemente, tenho aprendido a conviver com um tipo de mulher que, provavelmente, sempre existiu, mas que, no entanto, parece definitivamente ter saído da toca, emancipando-se de uma posição historicamente subalterna para assumir seu papel de co-protagonista da espécie humana. Falo da mulher que estuda, trabalha, inova, se rebela, compete, conquista, se arruma, se entrega, luta, cria, transforma e que é sujeito de tantos outros verbos que se agiganta de tal forma a ponto de parecer um ser maior, maior em tamanho e em poder, do que o homem.

A queixa atual mais comum de minhas amigas solteiras é a falta de iniciativa masculina, sua inação absoluta mesmo frente aos sinais mais evidentes de interesse feminino. Uma delas me contou que um homem a paquera há meses, mas nada de a convidar para sair. Ela pergunta se deve passar das indiretas para as diretas…

Uma leitora deixou um comentário sobre um post descompromissado que escrevi dois anos atrás sobre algumas possíveis razões da broxada masculina perguntando o que fazer para que o parceiro recuperasse a desejada ereção, já que cobrá-lo não estava surtindo efeito…

Tomar iniciativa, partir para o ataque, cobrar, pressionar, dominar parecem justamente ser os verbos que mais ameaçam a virilidade masculina. Ameaçam porque assim como o velho e chulo “dá ou desce”, eram exclusividade do mundo dos homens, tanto quanto as cantadas e, para voltar mais longe no tempo, a corte. Quando a mulher emprega os mesmos verbos e assume atitudes antes restritas ao nosso gênero, é como se nós, homens, sentíssemos o gostinho de nosso próprio veneno e, provavelmente, como ocorria com as mulheres, nos apequenamos, fragilizados no papel de oprimidos. No entanto, não se atinge com esse movimento o desejado equilíbrio, a sonhada igualdade de tratamento, tão necessária ao exercício do diálogo, único caminho para se concretizar o verdadeiro encontro. Como um pêndulo, o poder apenas muda de lado, do patriarcal ao matriarcal, mantendo-se as relações na base do opressor-oprimido, entre um que age e outro que reage.

O que minha amiga e a leitora devem fazer, porém, para que não vivam na eterna insatisfação de seus anseios, auto-censuradas no receio de reproduzirem uma relação de dominação? Anularem-se, mais uma vez, não é o caminho, pois tudo o que alguém obtém ao se anular para evitar um conflito é transferir a pressão exercida sobre o outro para si mesmo. A mulher que disfarça seu poder posando de frágil pode até abrir caminho para o ressurgir do guerreiro conquistador, conferindo à mulher que procura companhia a concretização de seu objetivo. No entanto, sempre que entramos numa relação fingindo ser um outro, criamos a situação insustentável do ator em cena em tempo integral.

O que todo mundo quer é ser amado pelo que se é, pois só é possível ser verdadeiramente a si mesmo. Mulheres super poderosas merecem, portanto, ser amadas por homens super poderosos. Porém ninguém tem super poderes o tempo todo e, atrás de um menino perdido, pode se esconder um homem que só uma mulher que assume sua essência única, o poder feminino, é capaz de despertar.

3 comentários para “Mulheres super poderosas e os meninos perdidos”

  • Patti disse:

    Oi Fábio,
    Acredito que na humanidade ainda estejamos “tateando” essa relação de equilibrio e respeito entre homens e mulheres. Espero que trabalhemos nas relações diárias para fluir e evoluir sem que seja preciso existir o super poderoso para existir o oprimido. Na verdade a vulnerabilidade que temos como homens e mulheres nos complementa e transforma em melhores seres humanos. Vamos continuar aprendendo…. beijos grandes Patti

  • Ana Magal disse:

    Não sei se fico em choque ou choro com o texto. Me sinto assim… sem graça, sem opção na vida. Não sei se continuo sendo quem sou: forte, decidida, aquela que se não tomam eu tomo a iniciativa… ou se finjo ser aquele que vocês querem: quieta, submissa, calada, que acata tudo o que pedem.

    Não quero perder minha essência, porém, é difícil ver que perdemos quem gostamos porque estamos sendo extremista demais para qualquer lado que viremos. Não consigo enxergar um meio termo nessa história. Ou somos quem somos e perdemos quem gostamos ou somos quem eles querem que sejamos e perdemos a nós mesmas…

    O que fazer nessa situação?

    Sinceramente… estou começando a chegar a conclusão que a opção de solidão total, inclusive de abstinência sexual, é a melhor solução para mim. Estou quase certa de que não nasci para ter nenhum tipo de relacionamento amoroso, seja ele puramente sexual ou não…

  • Fabio Betti disse:

    Falo sempre a partir de mim mesmo. E minha reflexão nasceu justamente para responder à questão que você levantou e que, em certo sentido, é recorrente por aqui: sou o que sou e corro o risco de não ser aceito pelo outro ou finjo ser o que o outro deseja e perco a mim mesmo? Como procuro deixar claro no texto, eu não tenho qualquer dúvida com relação a isso. No entanto, nesse mundo de relações superficiais e desonestas, corre-se o riso, sim, de se ficar sozinho. Uma amiga tomou a decisão de não se relacionar mais com nenhum homem em função das muitas decepções que viveu. Acredito apenas que quem não tem expectativas não se decepciona nunca nem com ninguém. Portanto, para mim, a chave está aí, nessas malditas expectativas, que nos fazem balançar entre a ilusão e a desilusão. Elas são nossa verdadeira prisão. O resto é, nas palavras do professor Humberto Maturana, fluir no presente contínuo cambiante.

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