Prazer ou alívio? Eis a questão

quarta-feira, 16 junho 2010, 23:28 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

O que será que acontece que não nos contentamos com as vitórias de nossa seleção – por enquanto – pentacampeã? É preciso ganhar com um futebol convincente, costumamos dizer. Mas se o objetivo é o título, por que não nos basta um futebol eficiente? A diferença está nos objetivos: enquanto um visa exclusivamente o resultado, o outro se realiza no caminho.

A seleção de Dunga, de modo não diferente de outros treinadores que já a dirigiram, tem um objetivo absolutamente claro: conquistar o hexacampeonato. Não nos deveríamos surpreender, portanto, quando tudo o que a seleção faça gire em torno desse objetivo. Ela opera com total coerência com sua meta, atuando de maneira suficiente para superar cada fase, como num jogo de videogame. E é exatamente como uma máquina eficiente que ela procura fazer uso dos recursos e da energia necessários para movimentar-se em direção ao seu objetivo da forma mais racional e otimizada possível. Simples assim.

O que, na verdade, deveria surpreender é que isso não nos satisfaça – nós, os que teoricamente deveríamos ficar felizes com uma estratégia que pudesse ser suficientemente eficiente para a conquista do cobiçado hexacampeonato.

Não resta qualquer dúvida de que nos orgulhamos por sermos os únicos detentores –até o momento – de cinco títulos mundiais. Basta sermos brasileiros e estarmos vivos para entendermos o significado de uma copa do mundo. Comemoramos cada conquista com o fervor patriótico que o futebol tem o poder de nos incitar. Com a taça em mãos, no entanto, ninguém mais se lembra do trajeto nem sempre tranqüilo que percorremos até levantá-la. É como se o passado repentinamente se apagasse, restando apenas a imagem de nossa glorificação como campeões sobre todas as outras nações.

O futebol pode ser eficiente para atingir seu objetivo final, mas não o suficiente para que nos sintamos verdadeiramente felizes. Tanto é que, passadas algumas poucas semanas do feito, já estamos novamente na posição de críticos e cobradores impiedosos. Agimos, sem perceber, como os jogadores, o técnico, enfim, os mesmos a quem criticamos, eternamente insatisfeitos, eternamente devedores. E, como eles, a cada nova fase superada, ao contrário de prazer, sentimos alívio…

Prazer tem a ver com estar feliz quando algo acontece, e alívio quando algo termina. Ao invés de uma única alegria no final da história, muitas alegrias em sua trajetória.

De um lado… “Ufa! Já passou! Que alívio!” De outro… “Ah! Já passou! Que pena!”

Queremos prolongar o prazer, mas abreviar o alívio.

Assim, fica fácil entender a diferença entre o que acontece no quadrado mágico e o que acontece fora dele. Para a seleção, cada vitória é um alívio. Para a torcida, cada jogo é uma esperança de festa. Os jogadores se unem no campo para vencer. Os torcedores se unem para celebrar. Um quer bater uma meta, outro quer viver um sonho. Quando o jogo termina, um fica feliz, enquanto o outro se entristece.

Impossível encontro, o alívio com o prazer. Um vive na obrigação, o outro na fruição. Alívio é expectativa, prazer é entrega. O alívio esconde a cobiça, o prazer escancara o desejo. O alívio é a estação final do sexo.

Já não sei mais se falo do futebol ou da vida. Só sei que, no jogo da vida, me interessa muito mais o prazer do jogo em si do que qualquer eventual alívio após o apito final.

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