Corações sequestrados

domingo, 27 junho 2010, 19:56 | | 5 comentários
Postado por Fábio Betti 

O que será que nos leva a aceitar relacionamentos onde não somos respeitados, admirados, ouvidos, ou seja, onde não somos verdadeiramente amados?

Você já viveu amores platônicos? Eu os vivi aos montes durante minha adolescência. Paralisado por uma timidez crônica, não ousava declarar minha paixão, o que me levava a sofrer as dores do amor eternamente idealizado e nunca correspondido. Conheço gente que, depois de grande, continua vivendo amores platônicos no silêncio solitário de sua mudez. Pior, no entanto, que o amor platônico é o amor que simula a síndrome de Estocolmo.

Síndrome de Estocolmo é o nome que foi dado à doença que certas vítimas de seqüestro desenvolvem ao buscar se identificar com seu raptor ou conquistar sua simpatia.

Na síndrome de Estocolmo, a vítima começa por se identificar, afetiva e emocionalmente, com seu seqüestrado, temendo algum tipo de retaliação ou violência e buscando assim um certo afastamento emocional da realidade perigosa e violenta a qual a pessoa está sendo submetida. Vivendo um stress físico e emocional extremo, pequenos gestos gentis dos captores são, então, amplificados, provocando um complexo e dúbio comportamento simultâneo de afetividade e ódio.

Da mesma forma, algumas pessoas criam, na maior parte das vezes, de forma inconsciente, estratégias ilusórias para se manter em relacionamentos onde não são amadas. Seja por medo de ficarem sozinhas, para evitar punições ou simplesmente para ficar perto, do jeito que for, da pessoa amada, acabam vitimadas por essa perversa síndrome que corrói lentamente sua auto-estima.

Observo esse tipo de comportamento, especialmente, nas leitoras que me escrevem perguntando o que fazer frente a companheiros já comprometidos com outras pessoas ou que não correspondem ao seu amor, enfim, em relacionamentos onde, de alguma forma, as pessoas deixam seqüestrar seu coração. É o caso de Clara, que diz ter apenas 15 anos e estar envolvida com um homem casado de 26 anos, para quem não tem coragem de declarar seu amor. Afora o fato de a relação entre eles ser considerada criminosa aos olhos da lei, em razão de Clara ser menor idade, o adultério também é prática condenada pela igreja, ampliando potencial e exponencialmente o sentimento de culpa da vítima. Só que, como qualquer pessoa que preza a si mesma, Clara deveria escolher relacionar-se com alguém que, de fato, seja capaz de amá-la ou, pelo menos, que se mostre disponível para que isso ocorra.

Outro caso que se apresenta complicado foi descrito pela leitora Lusiana, que diz ter se apaixonado por uma amiga casada. “Como competir com alguém que ela conhece há uma vida, alguém que sempre esteve ao seu lado, que a ama?” No fundo, a resposta está nas próprias perguntas que ela se faz. Necessidade de competir pelo amor de alguém já deveria ser um sinal claro de que esse alguém não nos ama…

No entanto, como na síndrome de Estocolmo, na maioria das vezes, não temos consciência dos jogos que praticamos na vida amorosa.

Cego de amor não é expressão à toa. Quem está cego de amor não enxerga nada além do próprio amor, como se o amor fosse um entidade independente do outro. O escritor modernista Mario de Andrade dizia que o amor é verbo intransitivo, ou seja, não depende de qualquer alvo ou objetivo. Mas, sem o amor do outro, estamos de novo no amor platônico, o amor idealizado que nunca se concretiza.

Na síndrome de Estocolmo, a vítima não se torna totalmente alheia à sua própria situação. Parte de sua mente conserva-se alerta ao perigo e é isso que faz com que a maioria tente escapar do sequestrador em algum momento, mesmo em casos de cativeiro prolongado. Da mesma forma, qualquer um pode tomar consciência de relacionamentos idealizados. Para isso, porém, é necessário encarar a desilusão do auto-engano, algo que costuma doer ainda mais do que o amor não correspondido, posto que nos damos conta de nossa própria responsabilidade sobre as desgraças que vivemos, e isso, sim, dói e dói muito.

5 comentários para “Corações sequestrados”

  • ana paula disse:

    eu namoro faz 10 anos, amo meu namorado, ele como todo homem, tem seu lado ruim que me magoa as vezes, mas tambem tenho momentos legais com ele, me da conselhos, me protege, mas o jeito dele ser… parece nao conseguir demonstrar seus sentimentos.. e hoje eu sinto que ele nao me da atencao que mereco, pq ele ja tem certeza que me ama… penso em terminar com ele mas nao consigo… parece que to presa nesse amor que sinto por ele, parece amor de mae sabe… hoje em dia eu traio… trai ele com umas 3 pessoas e todas queriam continuar… q eu terminasse com com meu namorado, mas nao consigo… nao consigo me ver sem ele… temos os mesmos amigos, dormimos todo final de semana juntos… as vezes dia de semana, to bem confusa.

  • Fabio Betti Rodrigues Salgado disse:

    Ana Paula, talvez esteja na hora de você falar para seu namorado sobre seus sentimentos e expectativas. Às vezes, sinto que as mulheres esperam que advinhemos o que elas sentem ou esperam de nós.

  • Gnome disse:

    That’s a great post. Where is the source of the information?

  • Fabio Betti Rodrigues Salgado disse:

    Olá Gnome! Você quer saber qual é a fonte de informação deste artigo? Simples: minha própria vida… Só escrevo o que experimento no meu viver. Abraços Fábio

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