Pode parecer meio estranho um ex-fumante discutir a relação com o cigarro, mas, como fui dependente durante 13 anos e, portanto, até o final da minha vida, corro o risco de acordar num belo dia com um tumor enorme no meio do peito, não posso e nem vou me calar.
Recebi a notícia de que uma pessoa muito querida e próxima a mim estava com um grande tumor entre os dois pulmões. Sete anos atrás, ela foi diagnosticada com câncer, extirpou um tumor na laringe, teve que reaprender a comer e ficou com sua fala parcialmente comprometida com a retirada de parte das cordas vocais. Mas havia voltado a viver sua vidinha simples, até receber a fatídica notícia. Fumou por mais de 50 anos. Considerando uma média de um maço por dia, isso dá uns 365 mil cigarros.
No site de uma das maiores indústrias do setor, encontrei essa pérola sob o título “Fumo e saúde”: “Reconhecemos que o consumo de nossos produtos envolve riscos à saúde. Por sermos uma empresa responsável, não temos poupado esforços para o desenvolvimento de produtos que possam representar potencial menor risco aos consumidores e estamos comprometidos a trabalhar com todos os setores interessados nessa tarefa.”
E o blá blá blá prossegue: “A ‘empresa X’ acredita que a decisão de fumar (ou não) é uma questão de livre escolha e deve ser tomada por adultos conscientes dos riscos à saúde associados.”
Traduzindo… As pessoas são livres para se matar, e o máximo que podemos fazer é oferecer aos interessados uma arma de menor poder letal e que mate mais lentamente.
Quando o governo aumenta os impostos – segundo a indústria, as taxas chegam a 80% do preço final ao consumidor -, elas alertam para o perigo de levar mais fumantes para o mercado informal, o que também poderia aumentar o contrabando. Como se contrabando fosse um crime maior do que assassinato em massa…
Quando são acusadas de assassinato – e o número de processos aumenta a cada dia -, se defendem com a ladainha de que as pessoas são livres para parar de fumar. Balela! Quem já tentou largar o vício, sabe muito bem que isso é uma mentira. Anos e anos de dependência química e psicológica não se curam com adesivos ou acupuntura. O esforço é brutal, quase desumano.
Quando se criam campanhas de combate direto à indústria, tratam logo de se colocar atrás do escudo humano, mostrando os milhões de trabalhadores que dependem do tabaco.
Os mesmos artifícios utilizados pela indústria do tabaco servem tanto à indústria de armamentos quanto ao tráfico de drogas. No morro, também se empregam pessoas, para fabricar, embalar, transportar, vender drogas e, se preciso for, para matar.
Aos olhos do direito penal, não há mais distinção entre autor e cúmplice, no sentido de colaboração principal e secundária, respectivamente. Todos os que concorrem para a infração penal são autores ou co-autores. Isso significa dizer que, se o cigarro mata – e que se calem os lobistas, pois os sérios danos causados pelo cigarro já foram exaustivamente comprovados -, a indústria como um todo incorre no crime – as instituições financiadoras, os plantadores do tabaco, os trabalhadores da fábrica, os executivos, os motoristas dos caminhões e até o português da padaria, que administra o ponto de distribuição da droga…
Na definição do Wikipedia e de muitos outros compêndios, droga é “qualquer produto alucinógeno (ácido lisérgico, mescalina etc.) que leve à dependência química e, por extensão, a qualquer substância ou produto tóxico (tal como o fumo, álcool etc.) de uso excessivo, sendo um sinônimo assim para entorpecentes.”
Fumo é droga, e pronto. Se os bancos, os plantadores, os trabalhadores, os executivos, os motoristas e os portugueses das padarias escolhem participar dessa cadeia, que eles parem de se iludir – e iludir – com discursos vazios e assumam sua co-responsabilidade nesse ciclo, literalmente, vicioso.
Tenho consciência de que, se esse texto cair nas graças da rede, posso sofrer represálias da indústria do tabaco, que atua sob um lobby poderoso e sabe muito bem como calar vozes dissonantes. Meu padrinho, já falecido, um dos grandes nomes da publicidade brasileira, teve interrompida sua carreira à frente de uma das maiores agências do mundo porque se recusava a fazer propaganda de cigarros, numa época onde o importante era levar vantagem em tudo, certo? Quanto a mim, já tentaram até me matar e, pelas minhas contas, umas 100 mil vezes, que é o número aproximado de cigarros que consumi. Tentaram, mas, como podem ver, não conseguiram. Por enquanto.
Discutindo a relação com o cigarro
sexta-feira, 02 julho 2010, 12:16 | | 3 comentáriosPostado por Fábio Betti
Caro Fábio,
Vc come carne, que morreu com os anabolizantes, depois morreu novamente de morte matada; e mais uma vez quando congelada nos frigoríficos com a inserção de proteína de soja (da Du Pont)? Vc bebe água tratada com cloro (Cloro que mata bactérias e evita distúrbios gastro intestinais, mas que reage com a matéria orgânica e produz cadeias carbônicas cancerígenas, como benzipireno) ?
Consome açúcar, sal..?
Hoje faço 60 anos, fumo desde os 16, tenho um plano de saúde há 30, mas nunca usei. A soma de um monte fatores é reponsável pelos desequilíbrios, pela doença… Cigarro é só um deles. Outro dia li um artigo maravilhoso que escreveu.
É verdade, Paulo. Se pensarmos bem, consumimos vários tipos de veneno. É que, no momento, estou mobilizado em torno do cigarro em razão de um drama pessoal, descrito no texto. Muito obrigado pelo comentário!
Ainda no outro dia escrevi um post sobre este asntuso! Tambe9m vi uma mulher bastante gre1vida a fumar e sf3 me deu vontade de lhe arrancar o cigarro das me3os e dar-lhe um grande serme3o. Que falta de respeito para com o feto! =/