As intermitências da vida

segunda-feira, 12 julho 2010, 00:16 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

Ando às voltas com a morte. Ela tem rondado pessoas próximas ou, pelo menos, conhecidas. Algumas vezes, mais do que rondado, a morte as tem levado para não sei aonde. Quando elas se vão, todos a sua volta, invariavelmente, ou reclamam o quanto ela é injusta ou, resignadas, elogiam a resiliência do moribundo. “Lutou até o fim”, dizem uns tantos. “Nem reclamou”, dizem outros. Quem morreu, de repente, se transforma em herói ou mártir. Só é lembrado pelos grandes feitos, pelo caráter irreprovável ou, no mínimo, como alguém bom o suficiente para não merecer ter sido levado tão cedo. O conceito de cedo varia de 20 a 90 anos. Parece que sempre é cedo para morrer.

No velório, todos choram seus mortos. Alguns contam piadas e dão risadinhas, como que para disfarçar o sofrimento. A popularidade do morto em vida é medida pela quantidade de pessoas que vão velá-lo em morte. Os que o conheceram aparecem para uma última despedida. Olham para o corpo estendido no caixão, às vezes, o tocam e ficam ali, confraternizando-se uns com os outros, à espera do ápice desse estranho encontro, quando todos seguem cabisbaixos em cortejo até o sepultamento.

Sepultamento. Essa palavra me causa calafrios. É grave, pesada como a terra jogada sobre o caixão, acompanhada em silêncio pá ante pá.

Sepultamento é palavra culta para enterro, mas também é sinônimo de tornar oculto. Me pergunto, ocultar o que? O caixão? O morto? A morte? Longe das nossas vistas, o caixão não existe, o morto é só lembranças e a morte, bem, a morte é outra vez esquecimento. Não se pensa mais nela, até falar é meio proibido, pega mal – só pode se for morte romanceada ou, o que está mais em voga, morte televisionada. De qualquer forma, a morte como espetáculo ainda vai, mas a morte cotidiana, essa que carrega pessoas a nossa volta, fica no mundo das conversas perigosas, que, reza o bom tom, é melhor serem evitadas.

Mas eis que a morte estúpida, sem heroísmo, bate à porta. Bate sem ser chamada, sem a companhia das câmeras de tevê, aparece sem charme e, mesmo assim, acontece e, quando acontece, nos assombra.

É natural morrer. Literalmente. E essa lei vale para todos os seres vivos, quer eles pensem nisso ou não. Ser dotado de capacidade de reflexão e, no entanto, não refletir sobre a morte, isso, sim, deveria ser um espanto.

Viver a vida sem saber que ela pode acabar a qualquer momento é coisa de planta ou bicho, não de gente. E saber que a vida pode ser repentinamente interrompida faz de qualquer um livre para viver intensamente cada instante. É aquela coisa de não deixar os sonhos para amanhã, de escolher aquilo que é bom e justo para cada momento, de valorizar as pequenas coisas, os pequenos milagres da vida que presenciamos a todo instante.

Já se falou e se escreveu tanto sobre isso e, mesmo assim, ainda vivemos negando as intermitências da vida. Vivemos na ignorância, consciente ou não, de que a vida é para sempre, e que a morte pode ser adiada – quem sabe, com nossa esperteza – até enganada! Mudamos nossos hábitos, passamos a freqüentar a academia de ginástica, fazemos dieta, tomamos remédios, na crença de que, de fato, assumimos o controle sobre ela, a morte.

Só que, quando estamos ali, em silêncio, com os olhos vidrados naquele caixão que baixa à terra, somos nós que nos sentimos enganados. Enganados pelo sonho fácil que compramos. Enganados por nossos pais, nossos amigos, pela sociedade inteira que encara a morte como tabu e, por isso, a esconde no porão, na terra dos bichos papões e dos Fredys Krueggers, como se ela fosse uma mera ficção para inspirar nossos pesadelos e não a realidade daquele corpo enrijecido e pálido aprisionado para sempre no caixão.

Devíamos, isto sim, ensinar a morte nas escolas, conversar sobre ela em casa, nas rodas de amigos. Quem sabe assim aprendêssemos a conviver com ela, aceitá-la como conseqüência natural do viver, e não mais nos espantássemos quando ela viesse bater a nossa porta, seja apenas para trazer um aviso, seja para cumprir sua nobre missão biológica de renovar continuamente a vida.

Um comentário para “As intermitências da vida”

  • PAULO disse:

    Se não sabemos de onde viemos, porque viemos e pra onde vamos…. Não sabemos nada. E se não se sabe verdadeiramente nada que importa, apenas vive-se e morre-se. Viver é prazer, dor, sonhos materializados ou não; morrer é o desconhecido.

    Prolonga-se a qualquer custo a vida porque o medo da morte não é infundado — não se aprende a lidar com ela exatamente por não sabê-la, ainda que esta seja a única certeza que os vivos têm.

    Como não sentir medo da morte se há quem se lastime ao quebrar uma xícara, apegados que são em coisas tão insignificantes?

    Àqueles que crêem numa missão, embevecidos de fé religiosa (que nada tem de racional), aonde o aqui é só uma passagem à vida eterna, não haveria por ter paúra, mas a maioria tem.

    Poderia se falar mais sobre a morte, aliás se deveria, mas não tenho convicção se na nossa cultura consumista ajudaria.

    abs.

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