O (estado de) amor pode ser para sempre

domingo, 01 agosto 2010, 14:57 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Tenho comentado com amigos que ando meio estranho. Para qualquer lado que olho, só vejo pessoas boas. Não que as pessoas sejam totalmente boas, mas vejo – e me conecto com – o bom que sou capaz de perceber que elas têm. Sinto como se vivesse sob os efeitos de um poderoso encantamento. Tanto é que não consigo mais me livrar disso e, qual uma Pollyanna romântica, amo todas as pessoas que encontro.

Pollyanna é o nome de um romance criado pela escritora Eleanor H. Porter em 1913 e que gerou diversas continuações da própria autora e de outras que encontraram nesse clássico da literatura infanto-juvenil uma espécie de mantra motivacional. Isso porque a parte da história que todos conhecem é a filosofia da protagonista original, Pollyanna Whittier, uma jovem órfã praticante de uma filosofia de vida que ela chamava de “Jogo do Contente”. O jogo consiste em encontrar algo para se estar contente, procurando ver apenas o lado bom dos acontecimentos.

À primeira vista, meu comportamento me levou a concluir que eu estava sofrendo da “Síndrome de Pollyanna”, só enxergando o lado bom das pessoas, em qualquer situação que vivesse com elas. No entanto, não me vejo fazendo nenhum jogo. Não procuro nem intenciono ver nada nas pessoas. Simplesmente, sinto o que sinto, sem esforço, e tenho o maior prazer no que encontro.

Descartada a primeira hipótese, questionei-me se não havia sido contaminado pelo amor romântico. Segundo a psicóloga Regina Navarro Lins, “ o amor romântico não é apenas uma forma de amor, mas todo um conjunto psicológico — ideais, crenças, atitudes e expectativas. Essas idéias coexistem no inconsciente das pessoas e dominam seus comportamentos, determinando como devem sentir e reagir. Ele não é construído na relação com a pessoa real, e sim sobre a idealização que se faz dela.”

Ao refletir sobre essa definição, também fica claro para mim que o que vivo não tem nada de amor romântico, mesmo porque, Regina conclui, “ a partir daí, surgem crenças equivocadas como: quem ama não sente tesão por mais ninguém; o amado deve ser a única fonte de interesse; todos devem encontrar um dia a ‘pessoa certa’. Mas por mais encantamento que cause num primeiro momento, ele se torna opressivo por se opor à nossa individualidade.”

Definitivamente, não é este o amor que sinto pelas pessoas, não as idealizo para preencher minhas expectativas ou idealizo o amor para me sentir amando; muito menos, abro mão de minha individualidade pelo outro. O amor que sinto é um amor que combina muito mais com admiração do que com desejo.

Com uma facilidade que, confesso, me espanta, tenho visto o lado bom que existe nas pessoas que cruzam o meu caminho. Elas continuam com sua sombra, mas perto do que mostram de luz, parece tão pequena que seria desonesto de minha parte me fixar nela, na sombra.

No entanto, não sou diferente de ninguém. Não sou nenhum ser espiritualmente evoluído ou iluminado, desapegado da vida mundana. Tenho inveja, ódio, frustração, medo, angústia, dor, raiva, desejo, insegurança. Só que, por algum motivo que desconheço, sinto que tenho processado tudo isso em um tempo diferente do que processava antes. No passado, me apegava muito mais aos sentimentos do que hoje em dia. Era como se eles fossem eu, e assim, eu me identificava com eles, com os sentimentos que, na verdade, deveriam ser passageiros, posto que representavam muito mais um estado momentâneo do que eu chamaria de ser ou essência. Só que, enquanto os estados se intercambiavam freneticamente, os sentimentos iam ficando, perdendo sua correlação com a realidade e, assim, virando uma espécie de órfão cheio de rancor.

Nos últimos tempos, tenho experimentado uma relação diferente com os sentimentos. A raiva vem, se manifesta e… passa. A dor segue o mesmo percurso – como a paixão, o medo, a inveja e tantos outros sentimentos que passam por mim, mas que não se abrigam nem se escondem no meu ser. Eu estou eles, mas não sou eles.

A sensação que tenho é que isso me liberta para amar as pessoas que encontro pela vida, amá-las pelo que elas são, não pelo que eu espero ou gostaria que elas fossem. Isso é verdadeiramente libertador na medida em que não me sinto nem um pouco pressionado por fazer qualquer coisa para ser correspondido. E, mesmo que elas venham a se identificar com algum sentimento que lhes passa ou que uma repentina ira ou decepção volte-se para mim, ainda assim continuo enxergando um ser maior do que isso.

Perguntei em meu Twitter outro dia se esse comportamento tinha chance de durar. Surpreendi-me com a torcida. Retribuo apenas revelando que escrevi essa reflexão na primeira pessoa do singular, primeiro, porque só me sinto autorizado a falar sobre minha própria intimidade, e, segundo, porque se, de alguma forma, estou experimentando esse estado de viver, qualquer pessoa, mas qualquer pessoa mesmo também pode experimentá-lo. Quem sabe alguém vá até mais longe, mostrando que pelo menos esse estado, o estado de amor, pode mesmo durar para sempre.

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