Viver sem esforço

sexta-feira, 13 agosto 2010, 11:47 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

Toda vez que meu professor de Biologia-Cultural, Humberto Maturana, diz que vive sem esforço, torço o nariz. Como um mantra, ele vive repetindo: “a vida é simples. Viver não requer esforço.” E não é que esse senhor de 82 anos, criador da autopoiese e da biologia do conhecer, está mesmo certo? Como um aluno aplicado, conscientemente, resolvi experimentar um pouco do que é viver sem esforço, e para isso não precisei me isolar em nenhum mosteiro tibetano ou qualquer outro refúgio ermo. Pelo contrário, escolhi viver sem esforço em meio a uma autêntica tormenta profissional. Não apenas sai ileso dessa experiência, como ainda aproveitei para pegar uma onda no mar revolto.

Vida de consultor não é fácil. Especialmente, a do consultor avulso, que, quando não está trabalhando em parceria com outros consultores, tem que se virar sozinho. É aquela história do pianista que carrega o piano e ainda o afina, conserta, reforma e faz o que for necessário para que o concerto não seja prejudicado.

Pois lá estava eu, preparando para colocar meu filho menor para dormir, quando toca o telefone com um cliente desesperado do outro lado da linha. O motivo seria um problema que havia ocorrido uma ferramenta de pesquisa via Internet oferecida como preparação para meus workshops. Não se sabia se o problema era o computador ou o browse do usuário, sua conexão com a Internet, o servidor onde a pesquisa estava instalada ou algum bug de programação. O fato é que havia um problema e eu, um consultor avulso nesse projeto, precisava me virar para resolvê-lo, pois muitos executivos participantes da pesquisa estavam furiosos, como explicava meu cliente.

Eu já vivi várias vezes esse tipo de situação. De repente, a paz é rompida e viro ou um super bombeiro, para quem apagar o incêndio é uma questão de vida ou morte ou, na outra ponta, o guerreiro cansado, que já fez tudo o que podia e simplesmente abandona o navio, com a consciência tranqüila de que o problema não é dele. As duas situações têm um ponto importante em comum. O esforço de fazer algo que me causa dor. Na primeira, vivo a pressão sobre-humana de “ter que resolver” o problema ou morrer. Na segunda, a frustração de nem ter tentado. Ou me esforço para não decepcionar o outro, ou me esforço para transferir a responsabilidade para ele. Ou perco a saúde ou a sanidade e a auto-estima. Que lógica é essa onde um esforço enorme leva à perda?

Nesse momento, surge Maturana, ajudado por Ximena, sua parceira de trabalho, para me cutucar com vara curta: “o esforço está em fazer algo que não se quer fazer, está no conflito entre fazer não para agradar a si mesmo, mas para agradar ou obedecer a um outro, seja ele uma pessoa, uma imagem ou um padrão.” E eu penso: filho da mãe! Minha primeira reação é de raiva, pois me sinto “sinucado”, sem opção de escolha: é matar ou morrer.

Tudo isso se passa em 5, no máximo, 10 minutos após a ligação da cliente desesperada. Lá estou eu refletindo sobre minhas escolhas, quando meu filho de apenas 8 anos se queixa de que está esperando que eu o coloque para dormir. Nesse instante, percebo a necessidade de meu filho em reconhecer sua presença. Desligo-me de tudo o mais e resolvo contar uma história para ele dormir – nada de mais, é o que penso na hora. Mas o fato de eu ter me conectado a uma necessidade do momento presente me fez escapar do velho padrão “matar ou morrer”. De repente, me vi frente a uma situação, que me era colocada como desafio, e eu podia, sim, escolher entre encará-la ou abandoná-la. Só que, desta vez, eu sentia que, se eu resolvesse encará-la, eu poderia fazer isso sem qualquer dor ou sofrimento, mas no bem-estar de desejar fazer o que tivesse que ser feito, e fazer com alegria.

Dito e feito. Sem muito pensar, abri uma garrafa de vinho, sentei na frente de meu computador e comecei a resolver os problemas, na confiança de que o resultado seria o melhor possível, porém sem nenhuma certeza de que o problema seria, de fato, resolvido. Tanto é que, embora tenha ficado até de madrugada fazendo correções no sistema, passei grande parte do dia seguinte envolvido em conversações com diversos participantes que ainda não estavam conseguindo participar da pesquisa. No entanto, como meu estado de ânimo era tranqüilo, sem esforço, conforme os problemas apareciam, eu ia lidando com eles, e, muitas vezes, lidar com eles não era resolvê-los, posto que a solução nem sempre surgia, mas de ouvir a queixa do outro, dar-lhe atenção, reconhecer-lhe a presença e mais nada. Isso já era o suficiente para que a situação se modificasse de tempestade para chuva fraca e desta para garoa fina e céu azul.

Ficou claro para mim que o fator determinante para essa reviravolta no clima não foi causada por meu heroísmo na busca da solução para o problema. Em nenhum momento, me vi ou me coloquei na posição de detentor de super poderes. Pelo contrário, humildemente, aceitei minha missão e, humildemente, reconheci minhas limitações em resolver todos os problemas, conforme eles iam surgindo. Essa postura, para minha surpresa, construiu vínculos importantes ao invés de destruí-los, como eu temia e, no fundo, acreditava que pudesse ocorrer se eu não me esforçasse o bastante. Acontece que “esforçar-se o bastante” nunca é o bastante; é sempre mais do que o bastante, sempre mais do que se pode e se deseja em termos de esforço próprio. Percebi que, quando me atropelo, quando, deliberadamente, me aniquilo servindo o velho padrão matar ou morrer, me afasto de quem penso atrair, resultando não no que quero, mas justamente no que mais temo. Afasto as pessoas porque adoto um comportamento não-humano, e me aproximo delas quando me mostro imperfeito, falível, limitado, mas também honesto, atencioso, solidário.

Ao ouvir meu relato, uma amiga disse que, infelizmente no caso dela, ainda não era capaz de chegar aonde cheguei. Surpreendi-me com essa afirmação, pois essa experiência me levou a concluir que o estado de viver sem esforço não é um lugar onde se chega e se fica para sempre – talvez, esse seja simplesmente um outro significado para morte. O estado de viver sem esforço é algo que se experimenta em momentos onde refletimos sobre o viver com esforço, o que significa que ele (ainda) só pode ser experimentado porque vivemos no esforço o suficiente para desejarmos viver a cada dia mais sem ele. Agradeço, portanto, a todas as vezes que vivi e ainda vivo com esforço. Sem reconhecê-lo, provavelmente eu jamais teria sido capaz de liberá-lo.

Um comentário para “Viver sem esforço”

  • Monica disse:

    Fabio,
    Gostei do texto, mas o registro, aqui, é uma confirmação de que sim, é possível viver dessa forma. Esta semana, diante de situações similiares à que descreve, lembrei do Rei Leão, que meus filhos cansaram de ver. Eu ri – literalmente – da cara do perigo e isso me fez muito bem. O perigo continuava lá, tinha (e tem) q ser resolvido, mas eu estou inteira e presente, o que não me libera de sentimentos como tristeza e cansaço. Afinal, sou GENTE!
    Um abraço.

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