Outro dia quase me atraquei com um padre. Provoquei-o com o assunto da pedofilia na igreja e ele partiu para cima, me bloqueando. Ainda bem que esse conflito se deu no Twiiter, assim, ninguém saiu com qualquer dano físico. No dia seguinte, ensaiei uma desculpa, dizendo que meu problema não era com o padre, mas com a igreja, esse lugar onde as idéias novas não têm espaço e a liberdade é combatida com o vírus da culpa.
Nasci e vivi numa família católica. Batismo, primeira comunhão, crisma, encontros de jovens, casamento. Passei pelos ritos clássicos de um católico praticante, mas, mais pensante do que devia, acabei praticando muito mais o conflito do que a eucaristia. Cansei de brigar com padres e devotos convictos, que vinham para cima de minha mente irrequieta com seus pesados dogmas e regras, ameaçando-me ao fogo eterno da culpa, caso não aceitasse as verdades que eles carregavam, como se verdades fossem as pedras do rio e não o próprio rio.
A igreja é só uma das instituições-prisão que resiste ao tempo com seu apego a idéias pré-concebidas, como forma de manter mansas as mentes e os corações cativos. Igrejas aliviam o peso da dúvida com a certeza do dogma. É assim, e pronto! Elas resolvem nossas angústias ministrando-nos doses cavalares de um potente inebriante chamado fé. Ao invés de seguir refletindo sobre o que vivemos o que vivemos, sobre nossos apegos e desapegos, acreditamos piamente, cegamente no que nos vendem como verdade, conferindo-lhes poder supremo e, em troca, ganhamos o paraíso na Terra, com a perdão de nossos pecados, e no Céu, com a concretização da vida que não conseguimos ter no presente.
Não é à toa que outra instituição-prisão secular seja o estado, que se mantém pela promessa de uma vida melhor no futuro, ao preço da cegueira, da surdez e da mudez das mentes pensantes. Quem se coloca contra ele, ou seja, contra a maioria que o sustenta, transforma-se em inimigo do povo.
Hoje em dia, no entanto, contamos com outro tipo de instituição-prisão que, por seus contornos transnacionais, parece ser muito mais poderosa do que a igreja e o estado. A nova instituição-prisão é a empresa, que estende seu poder de aprisionamento muito além do econômico e do cultural. Ela aprisiona mentes sem precisar dos instrumentos medievais utilizados pela igreja ou do aparato jurídico-policial do estado. A empresa controla a vida das pessoas pela sensação de segurança e realização, pelo status do cargo e, até mesmo, pelo “orgulho de pertencimento” a uma marca, a um modo de viver cultural que ela constrói, junto com as próprias pessoas, o que lhe confere ainda mais força.
Sei que, ao dizer estas palavras, uma turba furiosa irá se levantar contra mim – já fiz parte dela e pude observar que, quando se vê ameaçada naquilo que mais considera sagrado, ou seja, o torpor em que mantém sua consciência adormecida, ela parte para o ataque com todas as suas armas. Ser bloqueado por um padre é fichinha. Mas, honestamente, não vejo maldade nas pessoas que se vêem aprisionadas, seja pela igreja, pelo estado ou pela empresa. Não há lá muita diferença entre eu e elas. Também dependo do mesmo sistema que as sustenta.
No entanto, o mundo tem me parecido a cada dia um pouco mais triste e, como um impulso por minha própria sobrevivência, vejo-me impelido a mostrar-lhes o lindo horizonte que se abre a quem mantém seu espírito livre e a mente aberta. Cada nova verdade revelada é como mais uma estrela a brilhar dentro da gente, iluminando o que antes estava na sombra e aquecendo de novo a alma, essa eterna criança que, na liberdade, é fonte inesgotável de sorrisos e descobertas.
Prisões medievais e prisões modernas
domingo, 22 agosto 2010, 17:22 | | 5 comentáriosPostado por Fábio Betti
Belo texto. Estamos sempre em alguma instituição-prisão mesmo. Muitas vezes por vontade própria pq a “necessidade de pertencimento” é primal. Acrescento às suas três, a instituição-prisão “casamento”, que aprisiona os corações de quem nela se prende só para repetir padrões e ter a sensação (às vezes real) de não estar sozinho. Esta instituição aprisiona tb os que deixa de fora, aqueles que não entraram nela (por vontade própria ou por imperativos da vida ou sabe-se lá por quê). Aprisiona excluindo do padrão social e aprisiona tb pela solidão autoimposta.
Gostei muito do texto, principalmente da parte em você fala sobre a igreja. Não faço parte de nenhuma intituição religiosa, apesar de ter crescido dentro da igreja catolica. Eu respeito as crenças de cada pessoa, mas as religições tentam controlar os indivíduos de forma absurda. Quantas pessoas ja mataram e matam em nome de DEUS. Que deus é esse que deseja o sangue de seus filhos. Acredito que exista uma força maior por traz de tudo, mais não no personagem que o cristianismo criou. A igreja católica se opõe a qualquer coisa que fuja do tradicional. Vem um papa, vem outro com ideologias diferentes do anterior, mas as pessoas acatam mesmo assim e tomam tudo como verdade.
Obrigado, Luma, por seus comentários. Outro dia, debatendo com um padre católico, disse a ele que minha fé é tão grande que não cabe em nenhuma igreja. Parece que as religiões são lugares onde a fé deve ser enquadrada, e tudo o que a fé não precisa é de uma prisão.
Insubordinado,isso é o que vc é.
Obrigado, Keila, pelo elogio.